sexta-feira, 1 de abril de 2011

Uma história para 1º de Abril

1º de abril. Data em que é comemorado, desde 1971, o Dia Mundial pela Conservação dos Centros Históricos. A data rememora o I Seminário Internacional das Nações Unidas para a Conservação dos Centros Históricos e do Patrimônio Arquitetônico Mundial, realizado na Cidade do Panamá, que deu origem à Carta do Panamá (mais conhecida como Declaración del Casco Viejo), assinada por diplomatas, arquitetos e urbanistas de mais de 160 países. A Carta alertava para a importância da preservação do patrimônio arquitetônico e urbanístico dos centros históricos de cidades de todos os países do mundo.

Coincidência ou não, foi justamente em 1971 que o “russo alucinado” Vsesolod Y. Semitchasny rodou um de seus filmes mais celebrados – e também mais rejeitados: No leito da Rua Direita a História segue o seu curso. No esquecido clássico de Semitchasny é justamente a figura do ‘Centro Histórico’ que aparece como alegoria da História – a História com ‘H’ maiúsculo, essa invenção do Ocidente moderno.

Cartaz original do filme, de 1971.
O cenário do filme é o Centro Histórico da fictícia Nova Elêusis, de localização e história incertas, mas que faz alusão à antiga cidade grega onde teria nascido o poeta Museu. Cenário, no filme em questão, é um elemento fílmico de caráter um tanto distinto daquele que assume historicamente não apenas no cinema, mas também no teatro. Aqui, embora as ações se desenrolem sempre no universo de Nova Elêusis, as tomadas foram realizadas em bairros históricos de oito cidades distintas e de características muito diversas: foram elas a Nizhny Novgorod russa, cidade natal do cineasta; na Itália, a monumental Roma e a colorida ilha veneziana de Burano; a gótica Stralsund, na Alemanha; a milenar e eclética Cuzco, no Peru; o Rio de Janeiro e Paraty, no Brasil; e a mesma Cidade do Panamá onde aconteceu o Seminário da Unesco.

Mas apesar do que pode dar a entender o tour de force cenográfico do experimentalista Semitchasny, não é o espaço que é aqui posto em questão, mas a representação do tempo. O Centro Histórico de Nova Elêusis, ela própria fictícia, aparece como alegoria da História, esta materialização do desejo do homem moderno pelo poder sobre o Tempo – que só pode acontecer pela criação de ficções, sejam as registradas nos livros, sejam as edificadas nas cidades.

Como num road movie às avessas, os personagens de No leito da Rua Direita... viajam o mundo sem sair do lugar. Os personagens estão sempre em Nova Elêusis; mas Nova Elêusis, a cada cena (às vezes, em planos diferentes de uma mesma cena) é sempre uma cidade diferente. O escritor Ítalo Calvino nunca escondeu sua admiração por Semitchasny, e certamente não foi por coincidência que escreveu As Cidades Invisíveis em 1972, apenas um ano após o lançamento do filme.

Cartaz para a Mostra do Novo Cinema
Russo, em 1973.
Ao alternar indiscriminadamente as locações onde foram filmados os diálogos desconexos do filme, o mestre russo cria a imagem de uma História absolutamente fluida e incerta, onde a grandiosidade arquitetônica opõe-se à fragilidade dos personagens. Mas, não se enganem, a espacialidade não é posta em questão. O filme é uma ode à localidade, ao pertencimento comunitário ao lugar como reduto da memória, e não da História com ambições universais e deslocalizadas.

Se os personagens principais do filme (sempre burgueses ambiciosos e aparentemente seguros – mas só nas aparências, e o diretor é muito hábil na arte de demonstrar sua verdadeira miséria), como o arquiteto Andropov e sua jovem noiva Julia, alternam entre as diversas locações, os personagens secundários, os figurantes, estão sempre nos mesmos lugares. A cada vez que uma cidade aparece, lá estão, em segundo plano, seus mesmos habitantes – habitantes diferentes para cada locação.

O Centro Histórico de Nova Elêusis é uma ficção, e tanto faz que história seja contada, que signos sejam mobilizados para contá-la: o que importa é quem a escreve e quem os manipula, e os protagonistas desta disputa estão muito claramente definidos no filme.

A escolha das duas locações brasileiras para o filme não foi por acaso. Semitchasny esteve mais de uma vez no país, e era um declarado admirador do filme Rio 40 Graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos. Há uma nítida influência do filme brasileiro em No leito da Rua Direita... Em ambas as obras suas verdadeiras protagonistas são as cidades, mais do que os personagens: o Rio, no filme de Nelson; Nova Elêusis, para o autor de Porrete/Demência. Semitchasny esteve em Paraty a convite de Nelson, que naquele 1971 rodava no município o longa Como era gostoso o meu francês, depois de ter filmado um ano antes, na mesma cidade, Azyllo Muito Louco.

Mas essa não foi a primeira visita do russo ao Brasil. Semitchasny foi assistente de Orson Welles, e foi este quem o trouxe pela primeira vez ao país, em sua temporada por aqui em 1942. Voltou outras vezes, e teria rodado algumas cenas do clássico Porrete/Demência em Belo Horizonte, em 1959.

Assisti ao raro filme de Semitchasny numa cópia em VHS que me foi emprestada por um velho morador de Paraty, Seu Benedito, ele próprio figurante nas cenas locais. Fiquei impressionado com a força com que o filme alegoriza um aspecto da Paraty contemporânea que dificilmente o diretor teria percebido no princípio dos anos 70. Naquela época, a cidade ainda apenas iniciava o processo que a transformou em um dos principais destinos turísticos do Brasil: 1971 é justamente o ano de inauguração do trecho da Estrada Rio-Santos (BR 101, a famosa ‘Brioi’) que facilitaria enormemente o acesso por terra a Paraty.

Hoje, como na tese que o filme de Semitchasny parece defender, o Centro Histórico de Paraty é uma ficção alegórica que sustenta uma versão oficial e raramente contestada da história da cidade. Se o bairro parece preservar ou conservar o patrimônio arquitetônico da ‘Paraty histórica’, a cidade-cenário de sua própria narrativa oficial (centrada nos ciclos do ouro e da cana, com a decadência econômica que a isolou após a abertura de novas rotas portuárias e a abolição da escravidão), as fotografias e os relatos dos moradores mais velhos não deixam dúvidas de que se trata antes de uma reconstrução.

O cenário do Centro Histórico paratiense, antes da descoberta pelo turismo, era antes o de uma cidade decadente e abandonada. Casarões condenados, carcomidos pelo tempo; quarteirões inteiros feitos apenas de escombros; mas, mais importante que isso tudo, um grande número de casas ecléticas, produto da arquitetura de muitos e distintos períodos. Estas, foram quase todas demolidas (resta uma, solitária, que em breve será retratada e devidamente apresentada neste humilde blog); aqueles – todos os espaços vazios e prédios irrecuperáveis –, foram transformados em lindos e impecáveis 'casarões coloniais', que via de regra servem de abrigo para a) lojinhas para turistas ou b) residência para ricos empresários paulistanos ou europeus.

O mais grave não é a disneylandização do Shopping Histórico, digo, do Centro Histórico; é que suas edificações sirvam de lastro para a manutenção de uma história que apenas preserva e conserva a concentração dos recursos (materiais e simbólicos) nas mãos de uma elite que reúne a velha aristocracia das 'famílias tradicionais de Paraty' e alguns oportunistas. É preciso abrir a história da cidade, preenchê-la com as memórias de seus moradores – não apenas os que ostentam sobrenomes Históricos.

A Carta do Panamá apontava ainda para um aspecto fundamental, mas muitas vezes esquecido, do trabalho de conservação dos Centros Históricos: a musealização do patrimônio a céu aberto. Há muitos lugares 'históricos' no mundo – Semitchasny escolheu oito para seu filme. São históricos não porque têm história (é evidente que todos os lugares o têm); mas porque são espaços privilegiados para a qualificação da memória. Mas para tanto é preciso que sejam também qualificados: sinalizados, discutidos, postos em dúvida.

Vsesolod Y. Semitchasny
A repercussão negativa dos filmes de Semitchasny talvez devesse mais a sua personalidade e conduta que à qualidade da obra. Sua fama era de “louco alucinado” (donde o apelido de “russo alucinado”, que sempre o acompanhou), e mesmo Stanley Kubrick, seu amigo e admirador, referia-se a ele como um “doidão”. O cineasta americano chegou a afirmar ter se inspirado em Semitchasny para construir com Jack Nicholson o personagem principal de O Iluminado. Seu trabalho foi posto em dúvida, assim como sua reputação. Hoje, no entanto, praticamente esquecido, não há o que se por em dúvida.

Eis o mais severo dos efeitos do esquecimento: a falência crítica. Neste 1º de abril, em que se celebra pela trigésima vez o Dia Mundial pela Conservação dos Centros Históricos, vivemos também no Brasil, mais do que nunca, um momento crucial na luta pelo direito à memória. Não é a História (esta ficção nacionalista), mas a memória o que está em jogo quando lutamos pelo Direito à Verdade no desarquivamento da história recente da ditadura no Brasil. Este texto, incerto e disperso, é minha tentativa de contribuição neste 1º de abril à Terceira edição da blogagem coletiva pela abertura dos arquivos secretos da ditadura militar.

Encerro com alguns links sobre o assunto:

quarta-feira, 16 de março de 2011

Águas de março


Bicho gente e bicho cão, atônitos, observam a inundação
da Rua dos Sabiás

Paraty, manhã de 16 de março de 2011. Chove forte na Serra da Bocaina e os rios enchem.
O rio Perequê-Açu, que assim como o Rio Mateus Nunes corta a cidade de Paraty, já transbordou em alguns pontos, especialmente no bairro do Caborê.
Não sei como está o Mateus Nunes, que fica do outro lado da cidade. Minha casa fica a menos de 100 metros da margem sul do Perequê-Açu. O Caborê fica na margem norte, e foi construído numa cota mais baixa que a dos bairros da margem sul. É um bairro de classe média, de grandes casas de edificação recente. Muitas ruas ainda não foram asfaltadas. Ano passado foi um dos mais afetados pelas enchentes do reveillón.

A previsão é de sol nos próximos dias. Tomara que dê pra secar parte do prejuízo.
O rio Perequê-Açu, no limite das barreiras de contenção
Segundo o vice-prefeito, que encontrei vistoriando a ponte nova sobre o Perequê-Açu, estão alagados os bairros do Condado e do Pantanal, próximos à cidade, localizados entre a BR-101 e a Serra da Bocaina.
O momento crítico é depois das 11 horas, quando a maré deve subir e encontrar os rios cheios. Os rios são fundamentais para absorver a água da maré. Quando já estão cheios e recebem mais água vindo no sentido contrário, do mar, a tendência é de transbordamento.
Na cidade, nesse momento, chove apenas uma garoa fina. Mas o problema não é aqui, é nas nascentes na Serra. A esperança é de que pare de chover lá em cima, e o volume de água nos rios diminua um pouco antes que a maré suba. Quando aconteceu a última grande enchente, nas primeiras horas do dia 1º de janeiro, sequer chovia na cidade. Eu ainda não estava aqui.
Por enquanto, faço o que é possível: trago pra cima o máximo de coisas possível. E agora vou sair rapidinho pra comprar umas galochas.
A entrada da minha casa, alagada pela chuva
(isso sempre acontece, e não tem nada a ver
com a cheia do rio)
Principal ponto de transbordamento do Perequê-Açu














quinta-feira, 3 de março de 2011

Carnavida


Nas imediações imediatas do meu endereço o couro come na bateria e inunda todos os cômodos da casa com a vibração do carnaval. Depois de um dia atípico de frio melancólico, os sambas carnavalizados executados tão pertinho daqui me dão um novo alento. Tudo bem que a bateria não saia do feijão com arroz e o puxador mereça como maior elogio o “esforço”. Carnaval não é só isso – uma boa banda, a música bem executada, torna tudo mais bonito –, mas o espírito é esse. Um conjunto de percussão nas mãos de praticamente qualquer grupo de foliões (o limite fica mesmo bem baixo nessa época do ano) faz um bloco no mínimo suficiente pra deixar todo mundo contente.

Fui até lá pra conferir. Com o singelo nome de Os Paulos, o grupo ensaiava os sambas e marchinhas de seu desfile no barracão de fundos do posto de gasolina que costumo usar como referência da localização da minha rua. Com a nota derradeira do surdo, que agora só deve voltar a soar com o bloco na rua, cheguei em casa com vontade de escrever sobre o carnaval. Sem floreios ou sociologismos, o carnaval como eu o tenho vivido. Tem tempo que não atualizo o blog, e se é pra manter o hábito de traçar algumas linhas por aqui eu não poderia deixar passar a ocasião.

Fato é que sou apaixonado pelo carnaval, e essa não é uma paixão que vem da infância. Não de forma linear, pelo menos. Não amo o carnaval porque passei os melhores momentos da minha infância brincando nos blocos, ou porque foi no baile de algum clube que dei meu primeiro beijo ou porque venho de uma família de foliões assíduos que me ensinaram desde cedo o gosto pela festa de momo, a arte da concepção de fantasias, o caráter irreverente e muitas vezes político das marchinhas, dos frevos e de tantas músicas que embalam o feriado. Muitos carnavalófilos devem tirar explicações desse naipe pra justificar suas obsessões com a festa. Pra mim não vale nenhuma delas, o que não me isenta de recorrer a alguns psicologismos baratos quando me pergunto como foi que vim a cair de amores por esse evento, depois de chegar a odiá-lo.

A expressão no rosto não esconde a alegria 
diante dos cruzeiros que entraram na caixinha.
Essa foto aí do lado ilustra o episódio mais remoto de vivência carnavalesca que minha memória foi capaz de reter, do tempo em que eu ainda era um filhote de vara-pau. Não sei precisar o ano, mas foi num baile de carnaval do Iate Clube de Brasília. Foi minha mãe quem me levou, e a idéia da fantasia foi dela. Me vesti de menino de rua e repetia a mesma ladainha a todos os adultos e adultas que levavam suas crianças ao clube: “colabore com a caixinha!” Não me lembro do baile, das outras crianças, de confete, serpentina ou música. Tudo o que me lembro é de ter tentado ser menino de rua por um dia – tentado acreditar que eu era, e tentado convencer os outros, os adultos. As moedas que eu podia ganhar na caixinha, moedas de verdade, dependiam do sucesso do meu convencimento. É uma lembrança de carnaval, mas não é uma lembrança de festa. É uma lembrança de esforço, e a memória dessa brincadeira aparece pra mim, também, como a lembrança do primeiro trabalho. Um trabalho sem patrão, mas que me rendeu a primeira recompensa financeira. Não uma mesada automática, sem qualquer justificativa; mas a recompensa pelo meu trabalho, pelo meu convencimento. Hoje eu penso que não precisava muito pra convencer uma madame qualquer do Iate Clube a achar graça num molequinho branco e loiro brincando de ser mendigo. Mas pra mim a história era outra, eu ficava ansioso a cada vez que abordava um adulto e recebi aqueles cruzeiros com real júbilo, algo muito maior do que ganhar uns trocados mensais de pai e mãe. Foram os primeiros cruzeiros que eu realmente mereci ganhar!

Depois disso, é bem verdade, ainda tive alguns momentos memoráveis nos carnavais infantis. O que mais me encanta foi o ano em que me fantasiei de sanduíche, talvez a primeira fantasia de minha própria concepção. Aproveitando que ainda era um rapazote de medidas pouco expressivas, comprei a maior baguete da padaria, cortei-a transversalmente, pedi a minha tia que me ajudasse a envernizá-la, colei cada banda num papelão cortado em forma de alface, pintado de verde com uma rodela de tomate vermelho no meio, e descolei com minha avó uma roupa cor-de-salsicha. Depois amarrei duas alças nas alfaces e vesti o pão como aqueles “outdoors” ambulantes anunciam com cartazes pendurados às costas que compram ouro, dólares y otras cositas más.

Mas veio a adolescência, o rock e aqueles impulsos irresistíveis de rebeldia que quando surgem quase sempre vêm mal direcionados. Que nunca morra a rebeldia, mas que seja regulada a mira, o foco. Eu devia ter uns dez ou onze anos quando resolvi que não era legal ser terceiro-mundista. Tinha uns amigos europeus, outros que achavam que eram, e resolvi entrar na onda também. Nada mais fácil que se revoltar contra o próprio lugar. Só ouvia música gringa, aumentei a importância do fato hoje irrelevante de ter nascido no Velho Mundo – um golpe quase-acidental do destino –, torcia contra a seleção, incorporei o discurso-ladainha racista e classista da “ignorância” do povo brasileiro e das “vantagens civilizatórias” dos Europeus, entre outras babaquices. Tudo isso, sabe-se lá como, eu dava um jeito de encaixar numa perspectiva de mundo que se achava “esquerdista”. E nesse caldo todo o carnaval virou algo como “baderna de gente inculta, incivilizada e despolitizada que não sabe o que é boa música”. Exatamente o tipo de discurso que todos os anos, mais ou menos por essa época, eu ouço e leio nos mais diversos lugares. Outro dia li um comentário na internet, numa matéria do Correio sobre o desfile do Suvaco da Asa, retomando o eterno clichê da comparação do carnaval com o “pão e circo” romano. Dizia qualquer coisa como “o povo fica nessa baderna enquanto os corruptos roubam o seu dinheiro”, como se uma coisa tivesse algo a ver com a outra.

Se o carnaval foi vilanizado nessa fase lamentável de distanciamento do próprio lugar, ele precisou de alguns anos pra voltar com tudo como um dos fatores fundamentais de reaproximação e de realinhamento com pensamento e ação críticos e uma perspectiva centrada na localidade. A primeira descolonização, ainda antes da investida carnavalesca, veio pela música. O rock era incrível e eu tentava me distanciar do que se distanciava dele; mas o samba de Cartola, o choro de Ernesto Nazareth e Pixinguinha e o baião de Luiz Gonzaga voltavam ali pelos meus catorze anos como investidas irresistíveis. E foram abrindo portas. Antes de qualquer outra coisa, foi um novo lado da minha casa que eu redescobri: as estantes que ocupavam toda uma parede da sala com a coleção de discos do meu padrasto. Mas se era o apelo “popular-erudito”, que eu via nesses clássicos pra fazê-los encaixar numa leitura estética absolutamente restrita, o que me fez mergulhar nos volumes nacionais da discoteca de casa, aos poucos as barreiras e limites foram sendo empurrados e derrubados, e o caminho se tornou sem volta. Fui descobrindo cada vez mais paixões e cada vez mais me apaixonando pela música brasileira, que por sua vez puxou a música latino-americana, e logo logo o mundo inteiro aparecia como produtor de boa música, tornando-se muito maior que o Reino Unido e Seattle.

E aí veio o carnaval. E a primeira sedução não precisou de muito. Foi ainda em Brasília, e seu tão mal afamado carnaval. Mas pra quem não tinha nada e não sabia de nada, o Galinho da Madrugada e o Pacotão foram experiências revolucionárias. Naquela época eu já não escondia o amor pelo samba, mas tudo se transformou – para citar Paulinho – quando vi o ritmo tomando as ruas de Brasília – as quadras, pra ficar num plano ainda mais carnavalesco. E ele vinha acompanhado de vias interditadas para carros, os pedestres despreocupados; pais de família travestidos, crianças brincando livres na cidade, fantasias de todos os tipos, uma multidão colorida. Brasília mais viva do que eu jamais a conhecera. Aquilo era, antes de qualquer outra coisa, uma experiência estética maravilhosa. A cidade onde eu crescera, tantas vezes taxada de morta e hostil, um lugar onde supostamente não há gente nas ruas, de repente tomada por uma massa de pessoas alegres. Foi emocionante!

O Céu na Terra, em Santa Teresa, no pré-carnaval de 2011
E eu, que então era cheio de travas, me joguei na bagunça e fui inoculado pelo vírus do carnaval. E veio o Rio de Janeiro. Eu já sabia, porque já era notícia, que a folia carioca era maior que o sambódromo. Eram mesmo os blocos de rua que eu queria. E fui feliz! Aquilo tudo era muito maior e intenso do que o que eu vira em Brasília. E me lembrei das histórias que meu avô contava dos carnavais de seu tempo no Rio, e o bonde, e as brincadeiras, e as fantasias, e foi muito bom sentir, ainda que tardiamente, que eu compartilhava aquilo com ele. E amei o Rio mais do que nunca.

E veio Oruro, o carnaval maravilha boliviano. Nem me dei conta de que minha visita à cidade coincidiria com a festa. Foi uma coincidência fantástica. 
Diablo orureño. Essa eu tive que roubar no
gúgol, porque não levei câmera pra Bolívia
Cheguei a Oruro na véspera do carnaval. Pela ruas da cidade, todo tipo de gente trabalhava em enfeitá-la. O trajeto dos desfiles ia ganhando o equipamento das arquibancadas. E as crianças já se divertiam com os balões cheios d’água, pra desespero de turistas desavisados. A primeira coisa que fiz foi vestir a capa de chuva e me armar dos meus próprios balões. Entendi de cara o júbilo das crianças naquele simulacro úmido e divertido de uma batalha campal. O carnaval de Oruro, patrimônio imaterial da humanidade, com tantas diferenças e uma simbologia tão distante dos carnavais brasileiros, me fez sentir mais próximo do mundo andino que nunca. O fundamento religioso é sempre evidenciado por lá. Antes de qualquer outra coisa, reverencia-se à Pachamama e ao Tio Supay. Bebendo vorazmente cerveja, álcool de cozinha ou chuflay (a mistura da terrível singani boliviana com sprite), fantasiados de diabos e dançando a diablada, os orureños e camponeses de todo o território andino (que viajam à cidade pra pedir fartura à Pachamama) nunca perdem de vista a dimensão sagrada da embriaguez profana. A ch’alla, com que brindam e saúdam os próximos e os distantes, é tão profana quanto sagrada. A Virgem do Socavón divide o terreno festivo com os sacrifícios de animais e a cerveja que se derrama no chão, como aqui fazemos “para o santo”. E toda essa mistura de pachamama com catolicismo com festa com as fantasias mais coloridas que já vi com balões de água jogados por crianças nas ruas com música por toda a parte com bebedeira e tudo o mais foi como ver uma imagem contundente de que o Rio é Oruro, Oruro é Recife, e meu lugar é a América Latina tanto quanto o Brasil ou Brasília.

Olinda!
E vieram Olinda e Recife, e toda essa história se encaminhou para um desfecho urobórico na carnavalização da minha brasilianidade, do meu pan-latino-americanismo. Não há escala que dê conta de descrever a grandiosidade daquilo. No carnaval da conurbis pernambucana há lugar para tudo: para o Rio, para Brasília, para os Andes... Estar em Olinda entre o sábado de Zé Pereira e a quarta-feira de cinzas é como entrar em outra dimensão, um mundo paralelo não apenas de fantasias, mas de uma intensa fantasia onírica. É experiência transcendental, e o catalisador fundamental não é o álcool. O álcool tem seu lugar, é claro, sobretudo a cerveja que refresca o calor brutal. Mas o carnaval pernambucano é muito mais que uma festa regada a cachaça (que ali é bebida enlatada!). Nas ladeiras de Olinda e nas ruas do Recife Antigo encontrei na festa de Momo a intensidade de uma experiência religiosa. Religiosidade, diga-se, presente ali como em Oruro, sobretudo nos maracatus que produzem efeitos mágicos, em especial na Noite dos Tambores Silenciosos. Mas também uma religiosidade minha, uma religiosidade profana, um culto extático à história dos povos latino-americanos, que em Recife e Olinda, pelo menos uma semana por ano, tomam as ruas e afirmam sua potência soberana; um ritual anárquico – anarquista, ainda mais apropriado – encenado para lembrar que todo poder é frágil.

E a serpente (M’boitatá, Quetzalcóatl?) finalmente mordeu o rabo com o Suvaco da Asa. Não participei das primeiras edições do bloco, criado em 2006 por pernambucanas e pernambucanos radicados em Brasília. Só fui conhecê-lo às vésperas de minha primeira viagem ao carnaval de Recife, em 2009, no empenho de ir entrando no clima de uma folia de que eu quase nada sabia. Frevo pra mim era As Vassourinhas, e maracatu eu só conhecia em suas versões manguebeat ou naqueles movimentos da burguesia hippie brasiliense. Aquele (meu) primeiro desfile foi decisivo – me deu a chave para entrar com o pé certo na carnavalândia olindense. E a sagração completa veio logo depois, quando voltando a Brasília eu descobri por um golpe do acaso que uma das fundadoras do bloco vinha a ser minha prima – mapeamento que realizamos sem esforço, na mesa do bar onde acabáramos de nos conhecer, usando os conhecimentos genealógicos partilhados por todos os detentores de sobrenomes quatrocentões de Pernambuco, por mais distantes que sejam de suas famílias, como eu era. E assim, de uma seqüência de golpes carnavalescos, refiz os laços com toda a minha história, da família aristocrática de Camaragibe à luta anticolonial.

Essa história tem lugar ainda pra muitos capítulos e epílogos, a começar pela vida nova em Paraty, cidade festiva, dona de uma longa tradição carnavalesca, de bailes, fanfarras e blocos de mascarados. Por aqui, bonecos e máscaras enfeitando os casarões e os ensaios diários das baterias denunciam que o carnaval já inunda o espírito local. Mais, só posso dizer após as cinzas, quando começa a apuração.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O Eterno Retorno (ou Auto de Ano Novo da Serra da Bocaina - 1835/2011)


Paraty, 30 de dezembro de 2010
Temi pelo pior. A previsão era que chegassem às três horas, e como desfrutava o recesso de fim de ano voltei pra casa e abri uma cerveja pra esperar. Não estava só. Walison também tinha um copo sobre a mesa de latão que dá vida ao meu quintal com os resquícios de cervejas velhas que afogaram mágoas e brindaram alegrias por tantos anos em um ou mais bares de qualquer lugar do Brasil. Vinham de São Paulo, e quando ligaram ao meio-dia avisando que já estavam na metade do caminho imaginei que o Atlântico já fizesse parte da vista da estrada. Fiz um mapa horroroso indicando como se chega à minha casa, a partir do trevo rodoviário na entrada da cidade. Nem me ocorreu avisar que o caminho natural de quem vem pra Paraty de São Paulo é por Ubatuba, a terra de Cunhambebe.

Brasília, anos 2000
De muitas excrescências políticas vistas e vividas na capital federal, uma das mais surreais foi a mobilização de parte da comunidade do Lago Norte (bairro peninsular de mansões colado ao Plano Piloto) contra a construção de uma segunda ponte de acesso. Alegavam que a ponte apenas serviria ao acesso e mobilidade das comunidades mais pobres do entorno do bairro (Paranoá e Varjão, em especial). Para os “militantes” lago-nortinos, todos proprietários de carros particulares, mobilidade não era demanda prioritária. E, numa relação que demonstra sensível capacidade argumentativa, intuíam que a facilitação do acesso ao Lago Norte pela vizinhança menos abastada traria toda a sorte de mazelas para sua ilibada comunidade.

Paraty, Era Cenozóica, Holoceno
Bombardeado a vida inteira por este tipo de racionalidade, não foi exatamente com surpresa que fui perceber, logo na primeira semana em Paraty, que o mesmíssimo discurso faz sucesso por aqui também. O alvo prioritário é a estrada Paraty-Cunha, que aliviaria o tráfego da infame BR 101, devolvendo à histórica cidade portuária sua ligação com São Paulo e Minas. A Paraty-Cunha segue a rota da antiga – e agora de volta à moda pra turma do turismo de aventura – Estrada Real, atravessando o Parque Nacional da Serra da Bocaina. A previsão é de que as obras de reforma da estrada (falta um trecho do lado fluminense, ainda não asfaltado) fiquem prontas até o fim de 2011. Será muito mais fácil o acesso terrestre à cidade, que não mais se dará necessariamente pela tensa costeira sinuosa. E é isso que assusta a população abastada local, a perspectiva de que o acesso facilitado traga ainda mais turistas pra cá, e um turismo menos – digamos – chique. Milhares de famílias de motobóis, contínuos e outros “populares” paulistanos escolhendo a cidade colonial pra evitar nos feriados de sol os engarrafamentos do Guarujá.

Paraty, 30 de dezembro de 2010
Já eram quase quatro horas quando decidi telefonar. Não quis encher o saco antes, porque um atraso de meia hora é compreensível, imaginei a estrada cheia, e não queria parecer ansioso. Mas eu já começava a me embriagar – esperávamos que todos chegassem pra um almoço coletivo e com a tarde avançada a cerveja gelada roncava no meu estômago. Fiquei preocupado: acidentes não são raros na BR 101, e não é nada bem afamado o posto policial que faz ronda nos primeiros trechos fluminenses de estrada, logo após a fronteira de Ubatuba. Liguei primeiro no telefone de Marina, desligado ou fora da área de serviço; com o do Antonio, a mesma coisa. Achei estranho, porque há cobertura em todo o trajeto da Rio-Santos. Mais uma cerveja, e voltei a telefonar. Quase às 17 horas, após muitas cervejas e muito ouvir as gravações de celular fora de área, estava certo de que estariam acidentados ou presos – possivelmente, e na melhor das hipóteses, teriam sido ganhos com um baseado ou coisa parecida. Chegaram. Orientados por uma pegadinha do GPS, tomaram a “mais curta” Paraty-Cunha.

Guaratinguetá, 1º de janeiro de 1835
Abaixo assinado, datado de 1º de janeiro de 1835, firmado por 55 “cidadãos, filhos e moradores da Provincia de São Paulo, [Guaratinguetá] trabalhando efetivamente com suas tropas na estrada que daquella Provincia se dirige a essa Villa...” e dirigido à Câmara de Paraty, que dizia “representar contra o deplorável estado em que ora, mais que nunca, se acha a Serra denominada do Paraty; é sem dúvidas, Ilmos. Srs., assás doloroso, que apezar de pagarem tantos Direitos e de concorrerem tão eficazmente para o aumento e prosperidade dessa Grande Villa, sejão contudo os infra escritos condenados a sofrerem tantos males, encomodos e prejuizos, em conseqüência do desprezo em que se acha aquela Serra, desprezo que tão caro custa aos abaixo assinados, que por muitos titulos parece que deveriam merecer mais cuidados e atenções de V. Sas.; ao menos Ilmos. Srs. que uma só vez a cada anno se ordenasse o conserto de alguns mais notaveis precipicios que ali se encontram, já seria isso tolerável. Porém um abandono assim tão completo da única Estrada pela qual se acarreta para o Porto os ricos produtos daquella Provincia, é certamente digno de lástima. Os abaixo assinados, sofredores já de grandes perdas, não só em seus animais, como em seus próprios Escravos, vem perante V. Sas. reclamar com urgência por algum conserto naquella Serra, e quando isso não possam conseguir, ao menos pedir a abolição dos Direitos a que estão obrigados no Registro da Cachoeira. Tal é o apuro, Ilmos. Srs. a que os abaixo assinados são forçados: da inteireza pois e justiça de V. Sas. depende talvez a continuação ou cessassão de um commercio que muito influi, não só para a felicidade dos abaixo assinados, como e ainda muito mais para a prosperidade desse Porto. É pois com a maior confiança que os abaixo assinados, desesperados com os obstáculos que naquella Serra encontram, se dirigem diretamente a V. Sas., convencidos intimamente de que esta sua representação ou petição será indubitavelmente recebida e atendida como é de esperar-se do zelo e patriotismo de V. Sas.”.

Villa de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty, Era de Peixes
Sobre os impostos, ou “Direitos” (os pedágios da época), escreve o Dr. Samuel Costa que “Era tal a situação de angústia dos tropeiros, (precisando muitas vezes na secção da Vargem do Bananal estender os ligais de couro para as tropas sobre elas atravessarem os lamaçais), que ofereceram a contribuição voluntária de ‘quarenta réis’ por pessoa ou animal que passasse, começando a ser arrecadada em 22 de Abril de 1823, produzindo daí a 17 meses um rendimento líquido de perto de 800$000 que, naquele tempo era dinheiro apreciável, e por fim o Governo Imperial atendendo representação da Câmara da Vila, de 4 de Dezembro de 1824, autorizou, por Portaria de 18 do mesmo mês a aplicação do imposto de 80 réis por alqueire de sal importado da Bahia e Pernambuco para a realização dos consertos necessários. Era encarregado dos serviços, o Sargento Mór de Engenheiros Carlos Martins Penna, que construiu pela primeira vêz a ponte do ‘Registro’”.

Paraty, passagem ao ano 2011 da Era Cristã
Com o carro bastante avariado, me contaram que levaram quase duas horas pra vencer pouco mais de dez quilômetros, por uma trilha de precipícios por onde nem as mulas dos tropeiros passariam confortáveis. O Google Maps indica o mesmo e trágico – embora lindíssimo – caminho, em meio a um dos trechos de mais bem preservada Mata Atlântica. Sentamo-nos na nada chique mesa de latão, abrimos mais uma gelada, e como motobóis paulistanos em férias pusemo-nos a beber, ouvir as músicas que gostamos, e falar dos assuntos que quisemos, matando as saudades até firmar 2011.

Parque Nacional da Serra da Bocaina, Estrada Paraty-Cunha, RJ-165.
Registro de viagem de Marina e Antônio a Paraty, dez/2010.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Mofo deu

É maravilhoso estar tão perto do mar, mas tem horas que meu calanguismo sofre com essa umidade toda.
Já me acusaram de tentar forjar uma identidade neocandanga com minha defesa exacerbada das benesses da seca centro-planaltina. Também já fui chamado de polemista por me recusar a entrar no coro dos que lamentam a estiagem no cerrado. Não nego nenhuma das malsinações. Forjar identidades e polemizar são atividades que caminham de mãos dadas e sempre me aprazeram. Não voltarei a enumerar os argumentos de minha defesa da seca urbana - já sofri toda sorte de achincalhamento por isso -, mas devo dizer que os novos ares só reforçam meu afeto pelo 'antilúvio' brasiliense. Desta vez, em minha defesa, valer-me-ei do clichê de que há imagens que valem por mil palavras (embora acredite que deveria haver, em tão antiga conversão de câmbio fixo, reajuste em favor dos vocábulos, em tempos de tamanha abundância na oferta pictórica).

domingo, 21 de novembro de 2010

Pinga ni mim, Paraty

Não é de hoje a fama da cachaça de Paraty.
E não é hoje, com essa postagem mixuruca, que eu vou dar por terminado o assunto no blog.
Voltarei a ele, muitas vezes, espero que a cada vez mais versado no tema.
O fato é que a cachaça paratiense não só faz juz à fama, como merecia uma divulgação reforçada.
Constatei, quando aqui cheguei e deparei com a variedade dos rótulos, que jamais bebera antes, em minha vida de bebedor, uma única dose da secular marvada da mata atlântica.
Rogério Lopes, relações públicas da APACAP,
exibe orgulhoso o patrimônio de Paraty
Explica-se. Em todo o Distrito Federal há um único revendedor de um único rótulo da produção dos alambiques de Paraty. E não me perguntem quem é, porque essa informação me foi contada durante uma privilegiadíssima sessão de degustação da danada e acabou afogada no álcool. Mas não se preocupem, porque procurarei sabê-lo e compartilharei a preciosa informação.

Já foram mais de 100 os alambiques do município, hoje reduzidos a menos de dez. Mas se a produção perdeu em quantidade, parece ter no mínimo mantido a qualidade. E quando falo da cachaça paratiense assim, de forma genérica, não é forçando a barra com induções generalizantes depois de ter provado um ou dois rótulos. Como eu disse aí em cima, tive o privilégio, recém-chegado à cidade, de participar de um verdadeiro rodízio de pinga, promovido pela APACAP, a Associação dos Produtores e Amigos (dos quais já me sinto um!) da Cachaça de Paraty.
Uma a uma provei, em pequeninas doses, todas as mais de vinte vertentes paratienses do produto bebível da destilação da cana-de-açúcar, esta que já foi uma das propulsoras do apogeu da cidade, junto com o escoamento do ouro, e que agora vai se adaptando ao novo ciclo econômico, o do turismo. Abri mão, naturalmente, das variedades adocicadas da água que a garrinchinha não bebe (gabrielas, pingas de banana e afins). Gosto do mé puro.

Não tenho competência (pelo menos por ora) pra fazer comentários pormenorizados sobre cada uma e suas diferenças. Faço apenas um destaque, após essa primeira rodada de apresentação (que na disposição da mesa da foto seguiu o sentido horário), para a premiadíssima pinga azuladinha, invenção local, que recebe folhas de mixirica ainda durante o processo de destilação. Fica azulada quando exposta à luz, e à danada de altíssima qualidade é incorporado um sutilíssimo aroma frutado. Coisa fina!

Em breve começarei a visitar, também um a um, os alambiques da região. Companhia é bem vinda!

Em minhas incursões à coleção Paratiana da biblioteca do Instituto Histórico e Artístico de Paraty, o IHAP, encontrei entre os arquivos essa inspirada oração, que transcrevi respeitando a grafia original e agora compartilho com vocês:

Credo dos Pingueiros

"Creio na subtilidade do góle e de todo o produto de cana e da caninha. Creio na aguardente que é o nosso alimento, o qual foi concebido por obra e graça do alambique. Nasceu de um puríssimo canudo, padeceu sobre os apertos e prizão das moendas, e sepultado no côcho. No terceiro dia ressurgiu da garrafa, subiu ao céu da boca das cachaceiras e pau d'água. Estando o tonél bem arrolhado de onde há de vir alegrar os grandes e pequenos.

"Creio no Espírito de 21 gráus na santa safra do mél, na comunicação do imposto na remissão do sem penas, na reçaca de todos vós amém."

Anexada ao documento, uma pequena nota: "Adaptação do Credo Católico em alusão a aguardente fabricada em Paraty. Cópia do documento original, sem data, encontrado pelo Instituto Histórico e Artístico de Paraty durante a higienização dos documentos históricos para proteção."

Por fim, sobre o tema, compartilho com vocês alguns links interessantes:

Zumbi no Campinho



O Rio de Janeiro deu o passo à frente e definiu o 20 de novembro como feriado estadual. Não é o único. São centenas os municípios brasileiros que celebram oficialmente a data do assassinato de Zumbi, em 1695, definida desde 1978 como o Dia da Consciência Negra. O Distrito Federal ainda não, a despeito da ampla e importantíssima programação promovida todos os anos pelos grupos organizados e de forma independente pela população negra e comprometida com o combate ao racismo na capital do país. Em Paraty, a festa aconteceu no Quilombo Campinho da Independência, primeiro quilombo reconhecido e titulado oficialmente no Brasil, em março de 1999.

O XII Encontro da Cultura Negra, realizado pela Associação dos Moradores do Quilombo Campinho da Independência (AMOCQ), aconteceu entre os dias 19 e 21 de novembro, com uma linda programação!

Com a benção dos òrìsàs, o tempo que esteve fechado a semana inteira abriu-se num céu de brigadeiro desde a sexta-feira, e o samba com feijoada do almoço de sábado pôde acontecer com o sol merecido.

A festa foi linda, perfumada com samba, rap, ciranda, jongo, côco, maracatu, forró, comida boa e gente maravilhosa.

Sobre o 20 de novembro, em lugar das minhas palavras, compartilho esse texto impressionante do Luiz Antonio Simas: http://hisbrasileiras.blogspot.com/2010/11/dia-de-pensar-e-refletir.html

Deixo aqui algumas fotos, e assim que descobrir como fazê-lo compartilho também os vídeos.

Abraços energizados,

Asé!

O dia começou com samba...
... e feijoada!
À noite teve o show excepcional do Realidade Negra,
grupo de rap do Quilombo Campinho da Independência...
...brindado por uma lua cheia espetacular!