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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Dos Alterógrafos


O autógrafo como fetiche

Alguém já deve ter dito das dedicatórias, sobretudo as autógrafas, que compõem em si subgênero literário. Algumas são, de fato, peças literárias. Ouvi dizer por esses dias que as dedicatórias em verso do Drummond viraram livro. Digo isso só pra citar um exemplo, e pra parecer que este blog está antenado nos lançamentos (não, não está). Mas acho que é um exemplo excepcional, e de fato as dedicatórias costumam ser outra coisa (pelo menos se concordarmos que literatura não é sinônimo de escrita).

Das dedicatórias, autógrafas ou não (e falo aqui especialmente daquelas derramadas sobre livros, em geral na folha de rosto), há muito o que se pode dizer, de muitas perspectivas, e muito elas dizem da literatura. Da literatura como campo, diga-se, que envolve não apenas a dimensão estética, mas tudo o que a ela mais diretamente se associa, incluído aí o mercado literário.

Há o fetiche, talvez o elemento mais óbvio. E um fetiche exemplar, olhemos-lhe como o faria Marx ou como o faria Freud. O garrancho missivista que reinventa e eterniza numa mesma frase a relação muitas vezes fantasiosa entre o nome de quem escreve, remetente, e o nome de quem lê, destinatário; a mácula de tinta na página clara, que curiosamente tornará o exemplar, dali em diante, um objeto imaculável; a marca pessoal da autora, na letra de próprio punho, à mercê da grafologia amadora do leitor, restituindo algo do elemento pessoal e artesanal em um objeto que se tornou industrial.

Flip

Em um evento literário como a Flip, autógrafos e dedicatórias ocupam um lugar muito especial. Pautam decisões da curadoria, tiram leitores e leitoras de casa (às vezes de muito longe), produzem filas monumentais, movimentam as livrarias. A livraria oficial do evento, vinda diretamente de São Paulo, ficava, não por acaso, justamente na “Tenda dos Autógrafos”, bem ao lado da mesa onde se sentavam autores e autoras (para o descontentamento do casal local de livreiros, desprestigiado pela organização da Festa). Nunca se vendeu tantos livros em tão pouco tempo como nos minutos imediatos após a bem sucedida palestra daquele escritor carismático, que em instantes capricharia na simpatia enquanto dedicaria beijos e abraços assinados por três horas, até que seu punho acusasse a tendinite (tá bom!, lançamento de Harry Potter vende mais, mesmo sem autógrafo).

Alguém certamente já escreveu um belo e merecido ensaio sobre as dedicatórias autógrafas, e eu serei grato a quem me indicar onde encontrá-lo. Mas não vou ensaiar aqui sobre o pretenso subgênero. Mais do que isso, nesses dias pós-Flip, me interessam as histórias por trás dos rabiscos. Acho que elas contam muito da relação entre leitores e leitoras (bibliófilos/as ou não), autores e autoras, livros e literatura, e inevitavelmente o mercado editorial e seus eventos.

Transdedicatórias

Meu amigo Carlos me contava, dia desses, de uma bonita coincidência. Comprou um livro usado, pela internet, e recebeu-o dedicado. Não a ele, é evidente. Tratava-se de uma antiga dedicatória, do tempo da edição. Mas o antigo portador era homônimo, e meu amigo foi surpreendido com um afago transgeracional, de alguém que jamais conhecera (possivelmente morto), endereçando palavras de afeto “Ao Carlos”. O Carlos chorou quando abriu o pacote, diante daquilo que a Ju interpretou como uma conspiração do universo. As dedicatórias são muitas vezes inspiradoras, mas às vezes são também conspiradoras.

O livro acidentalmente encaminhado ao destinatário desconhecido (pelo autor) da dedicatória, ainda redime pelo acaso a dimensão mais sublime da livraria de usados em tempos de sebos virtuais. Se já não há a possibilidade de se deparar, em meio a prateleiras nunca dantes exploradas pela humanidade, com exemplares raros e achados inesperados - o que dava sentido à função de vasculhador de sebos -, resta ainda a possibilidade do imponderável pela casualidade. Já não é mais o comprador bibliófilo quem vasculha as prateleiras, abana a poeira e afasta as teias de aranha em busca do grande achado. Agora cabe-lhe utilizar as palavras corretas na busca em estante virtual, encontrar o livro pretendido (o procurado, não o descoberto) e esperar que o livreiro o separe e encaminhe pelo correio. O que resta de acaso fica com coincidências mágicas como a da homonímia autografal.

Alterógrafos

Este exemplo de transdedicatória sugeriu-me ainda o grande valor não do autógrafo, mas do altógrafo. Ou alterógrafo, pra evitarmos o erro do neologismo heterógrafo, tão propenso a mal-entendimentos futuros. Trata-se daqueles livros que são autografados, mas não pelo autor. É um gênero muito próximo das dedicatórias afetuosas que costumam ser oferecidas com os livros presenteados (talvez até as inclua, em muitos casos pelo menos), mas que ainda guarda algo da relação autor(a)-leitor(a).

Conto um exemplo, diretamente da Flip: um dos momentos mais bonitos do evento foi um pequeno concerto oferecido em homenagem ao Paulo Moura, que deixou o mundo mais triste há exatamente um ano, no dia 12 de julho de 2010. Tocaram quatro grandes instrumentistas, parceiros do maestro em vida, na sala onde ele também tocara anos antes, no Teatro Espaço. Cliff Korman no piano, Daniela Spielmann no sax e na clarineta, Katia Preta no trombone e Robertinho Silva na percussão dividiram o palco com a viúva de Paulo Moura, a psicanalista Halina Grynberg, que lançava a biografia “Paulo Moura, um solo brasileiro”, de sua autoria. Comprei o livro ainda antes do show, uma edição maravilhosa que acompanha um CD do mestre em parceria com Andre Sachs e várias participações.

Entre uma música e outra, a viúva lia trechos do livro e contava histórias. Por mais que eu respeitasse a intensidade do que representava para ela aquele momento, de homenagem ao grande homem com quem foi casada por 26 anos, sua vaidade pavoneante e a insistência de querer ser maior que os/as músicos/as e a própria música não me permitiam criar empatia. A falta de empatia virou antipatia declarada quando a viúva desautorizou no palco o Robertinho Silva, um dos grandes da música brasileira e mundial, baterista e percussionista, parceiro não apenas de Paulo Moura, mas também de Milton, Wagner Tiso, George Benson, João Donato, Tom, Gal e Sarah Vaughan, pra citar uns poucos. 

Uma cena colonial, em um casarão do Centro Histórico anterior à abolição, em que a senhora branca, imbuída de autoridade estrutural e de ocasião (por ser branca, mas também por ser a viúva e por ser autora no evento literário), destratou o músico negro que ameaçou falar também, contar uma história vivida por ele próprio com o homenageado, mais de trinta anos antes, quando ela sequer conhecera o marido: “se você falar, eu vou tocar percussão”. Robertinho respondeu com um irônico “sim, senhora”, não em sinal de submissão, mas para evidenciar em que tipo de cenário aquela cena se ia configurando. No fundo, um enorme pôster com o sorriso negro do próprio Paulo.

Terminado o show, não pensei duas vezes: no lugar do autógrafo de Halina sobre o livro que escrevera, fui reverencioso entregar a caneta pro Robertinho, que assinou meu exemplar com alegria. Aqui, mais do que o fetiche, o pedido do autógrafo (ou alterógrafo) foi uma declaração de admiração e respeito, e um posicionamento.


Robertinho nos deu a honra de participar da roda de samba. O também
ilustre Chiquinho da Livraria esteve por lá.

Transferência

Houve história vagamente assemelhada, esta não um caso de alterógrafo, mas de transferência de fetiche. Fui com certa expectativa assistir à mesa intitulada “Pontos de Fuga”, com a argentina Pola Oloixarac e o português nascido em Angola valter hugo mãe. Primeiro por ser uma das poucas mesas da Flip em que eu já havia lido romances dos dois autores, e gostado; segundo porque havia meses que se falava com expectativa na presença dos dois em Paraty, expoentes da nova literatura. E havia a Pola, por mais perverso que isso possa ser quando o assunto que interessa é a literatura, que trazia ainda a expectativa sobre sua beleza. Pola era a sensação da Flip.

A mesa, no entanto, foi do mãe. O português carismático, nome sempre grafado em minúsculas, conseguiu arrebatar a platéia falando com simplicidade e humor de sua própria intimidade, de sua visão da literatura, de seu próximo romance e de sua relação com o Brasil. Tratando sobretudo do tema da “perda” e da “falta”, mãe se emocionou e emocionou o público lembrando da morte do pai e afirmando que “o escritor substitui na literatura aquilo que lhe falta”.

Saí eu próprio arrebatado, encantado com o mãe quando esperava me encantar com a Pola, e decidi pedir o autógrafo dele. Foi a única ocasião em que me dispus a comprar um livro na livraria oficial do evento e entrar na fila em busca de uma assinatura. E não fui o único. O romance novo dele, lançado na própria Flip, foi o único a esgotar nas prateleiras durante o evento, 500 cópias vendidas, duas mil pessoas na fila dos autógrafos.

Alguém se arrisca a decifrar que diabos
rabiscou o mãe?
Mas não entrei na fila apenas pra ter a letra dele no meu exemplar. Decidi, em troca, eu mesmo presenteá-lo com um livro. Lhe ofereci Matita, o bruxo, romance do Paulo César Pinheiro que eu acabara de ler e que muito me lembrara o romance anterior do mãe, o remorso de baltazar serapião. E não tive dúvidas: tasquei na folha de rosto a minha própria dedicatória, de agradecimento de leitor. Entrei na fila dos autógrafos não apenas pra ganhar, mas também pra oferecer um “autógrafo” (neste caso, meu próprio alterógrafo). E saí de lá com um garrancho ilegível escrito em caneta branca sobre a folha de rosto preta de a máquina de fazer espanhóis. Só decifrei ali o meu nome, e deduzi o nome do autor. Que, diga-se, não é nome de batismo. O mãe, na verdade, é batizado Valter Lemos, quem sabe meu parente distante, e escolheu levar a referência maternal no nome de trabalho por acreditar na incondicionalidade da presença materna, e na necessidade de que a literatura seja ela própria incondicional (na relação do autor com sua obra). Acho esse papo piegas e um tanto quanto duvidoso no caso da maternidade, mas gosto da defesa de uma literatura incondicional.


Sobre a maternidade, a propósito, a Pola teve um de seus bons momentos na mesa, quase sempre devidos a pitadas de acidez derramadas sobre o clima de comoção provocado pelo colega. Quando ele afirmou que pensava agora em ser pai, pela primeira vez, chegando aos 40 anos, a argentina comentou que se fosse ela a dizê-lo seria acusada de estar dando declarações do nível de Sex and the city.

É bom que se diga que fui movido aqui, em minha busca pelo autógrafo de v.h.m., pelo arrebatamento, pela fala que me fez emocionar e chorar. Disse coisas interessantes, a Pola. Sobretudo em momentos exteriores à mesa, em que ela nitidamente foi surpreendida pelo rumo da conversa (que prometia ser uma conversa sobre literatura) e acabou intimidada. Fez uma deliciosa provocação ao italiano que desistiu de vir à Flip em “protesto contra o governo brasileiro” pela não extradição do Cesare Batisti. E ainda uma leitura importante, de abrangência latino-americana, da contribuição do Oswald de Andrade, autor homenageado da Festa, ao aproximá-lo do patrício J. L. Borges, pensando a dificuldade dos dois países em dialogar quando muitas vezes falam das mesmas coisas. E apontou para a originalidade de Oswald, quando Borges estava sobejamente centrado num modelo importado de T. S. Eliot.

Desautografia

Falando em Oswald, e voltando aos autógrafos, houve quem tenha apanhado um dos exemplares de O Rei da Vela distribuídos gratuitamente pela Folha de S. Paulo e procurado ansiosamente ao longo do evento por uma oportunidade de encontrar o autor da vez para uma dedicatória personalizada no livro.

E ainda sobre autógrafos que não aconteceram, há o caso daqueles pedidos ao autor errado. A Flip estava especialmente propensa a fatalidades e constrangimentos como esse envolvendo autores e mediadores carecas de meia idade. Eram vários, inclusive o próprio mãe. Vislumbrei, num momento de sonho, uma cena ideal: um rapaz, emocionado com a participação do mãe, porém sem saco pra esperar horas na fila, procura pelo português nas ruas da cidade, o livro sempre debaixo do braço. Avista em uma das ruas de pedra a figura do autor careca, e o aborda com um sorriso e uma caneta. O escritor fica satisfeito com o reconhecimento, também sorri, e só quando toma o livro na mão para começar a escrever é que se dá conta de que não é obra sua.

– Você me desculpe, mas esse livro não é meu.

– Mas você não é o mãe?

– Não, eu sou o Pondé.

E o rapaz vai embora, decepcionado, deixando também decepcionado o mais canastrão dos autores da Flip. Eu não queria falar sobre o Pondé, de quem acho que nem vale a pena comentar, mas vou aproveitá-lo só pra fazer um gancho. O infame colunista da Folha foi convidado pra dividir a mesa com o Miguel Nicolelis, outra atração de grande envergadura da Flip. É evidente que não foi a escolha mais apropriada, e a presença do neurocientista, cuja apresentação resumiu-se a uma breve apresentação dos aspectos mais gerais de seus experimentos geniais, podia ter sido muito melhor aproveitada se tivesse tido a companhia de um provocador das implicações políticas e filosóficas de seu trabalho e seus produtos. Penso, por exemplo, no quão incrível poderia ter sido uma mesa reunindo Nicolelis e Eduardo Viveiros de Castro, ou a Donna Haraway. Pondé não fez nada disso.

Da provocação

Quem o fez, no entanto, em forma de provocação divertidíssima, com todo o respeito que eu tenho ao Nicolelis, foi o grande Zé Celso Martinez, na Macumba Antropófaga que encerrou o evento. Fazendo a ponte entre um dos momentos de maior repercussão da Flip e o texto mais notório do autor homenageado, Zé Celso resgatou do Manifesto Antropofágico a figura já folclórica do Dr. Voronoff, e a fundiu com a do criador do Instituto Internacional de Neurociências de Natal. Aqui foi o cientista franco-russo, já cantado por Noel e Lamartine, inventor de método nada ortodoxo de rejuvenescimento, quem transplantou glândulas sexuais de macacos em um tetraplégico e o fez levantar e marcar um gol apoteótico, com a camisa da seleção, como Nicolelis espera fazer na abertura da Copa do Mundo de 2014 utilizando um exoesqueleto controlado por estímulos cerebrais. Ciência e mito, aproximados não em menosprezo à ciência, mas em prol do entendimento da história e da narrativa crítica.

Haveria muito mais o que dizer sobre a Flip, é evidente, assim como muito já se disse nos últimos dias. Me esquivo, por ora, de qualquer comentário geral sobre o evento. Eles inevitavelmente surgirão em outros textos, quando eu abordar questões caras à cidade. Alguns temas importantes foram sugeridos no texto que linko aqui e também neste aqui, por gente que como eu também se mudou pra Paraty há pouco. Mas encerro assim mesmo, retomando as dedicatórias, dedicando este post já grande demais ao Carlos e à Ju.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Carnavida


Nas imediações imediatas do meu endereço o couro come na bateria e inunda todos os cômodos da casa com a vibração do carnaval. Depois de um dia atípico de frio melancólico, os sambas carnavalizados executados tão pertinho daqui me dão um novo alento. Tudo bem que a bateria não saia do feijão com arroz e o puxador mereça como maior elogio o “esforço”. Carnaval não é só isso – uma boa banda, a música bem executada, torna tudo mais bonito –, mas o espírito é esse. Um conjunto de percussão nas mãos de praticamente qualquer grupo de foliões (o limite fica mesmo bem baixo nessa época do ano) faz um bloco no mínimo suficiente pra deixar todo mundo contente.

Fui até lá pra conferir. Com o singelo nome de Os Paulos, o grupo ensaiava os sambas e marchinhas de seu desfile no barracão de fundos do posto de gasolina que costumo usar como referência da localização da minha rua. Com a nota derradeira do surdo, que agora só deve voltar a soar com o bloco na rua, cheguei em casa com vontade de escrever sobre o carnaval. Sem floreios ou sociologismos, o carnaval como eu o tenho vivido. Tem tempo que não atualizo o blog, e se é pra manter o hábito de traçar algumas linhas por aqui eu não poderia deixar passar a ocasião.

Fato é que sou apaixonado pelo carnaval, e essa não é uma paixão que vem da infância. Não de forma linear, pelo menos. Não amo o carnaval porque passei os melhores momentos da minha infância brincando nos blocos, ou porque foi no baile de algum clube que dei meu primeiro beijo ou porque venho de uma família de foliões assíduos que me ensinaram desde cedo o gosto pela festa de momo, a arte da concepção de fantasias, o caráter irreverente e muitas vezes político das marchinhas, dos frevos e de tantas músicas que embalam o feriado. Muitos carnavalófilos devem tirar explicações desse naipe pra justificar suas obsessões com a festa. Pra mim não vale nenhuma delas, o que não me isenta de recorrer a alguns psicologismos baratos quando me pergunto como foi que vim a cair de amores por esse evento, depois de chegar a odiá-lo.

A expressão no rosto não esconde a alegria 
diante dos cruzeiros que entraram na caixinha.
Essa foto aí do lado ilustra o episódio mais remoto de vivência carnavalesca que minha memória foi capaz de reter, do tempo em que eu ainda era um filhote de vara-pau. Não sei precisar o ano, mas foi num baile de carnaval do Iate Clube de Brasília. Foi minha mãe quem me levou, e a idéia da fantasia foi dela. Me vesti de menino de rua e repetia a mesma ladainha a todos os adultos e adultas que levavam suas crianças ao clube: “colabore com a caixinha!” Não me lembro do baile, das outras crianças, de confete, serpentina ou música. Tudo o que me lembro é de ter tentado ser menino de rua por um dia – tentado acreditar que eu era, e tentado convencer os outros, os adultos. As moedas que eu podia ganhar na caixinha, moedas de verdade, dependiam do sucesso do meu convencimento. É uma lembrança de carnaval, mas não é uma lembrança de festa. É uma lembrança de esforço, e a memória dessa brincadeira aparece pra mim, também, como a lembrança do primeiro trabalho. Um trabalho sem patrão, mas que me rendeu a primeira recompensa financeira. Não uma mesada automática, sem qualquer justificativa; mas a recompensa pelo meu trabalho, pelo meu convencimento. Hoje eu penso que não precisava muito pra convencer uma madame qualquer do Iate Clube a achar graça num molequinho branco e loiro brincando de ser mendigo. Mas pra mim a história era outra, eu ficava ansioso a cada vez que abordava um adulto e recebi aqueles cruzeiros com real júbilo, algo muito maior do que ganhar uns trocados mensais de pai e mãe. Foram os primeiros cruzeiros que eu realmente mereci ganhar!

Depois disso, é bem verdade, ainda tive alguns momentos memoráveis nos carnavais infantis. O que mais me encanta foi o ano em que me fantasiei de sanduíche, talvez a primeira fantasia de minha própria concepção. Aproveitando que ainda era um rapazote de medidas pouco expressivas, comprei a maior baguete da padaria, cortei-a transversalmente, pedi a minha tia que me ajudasse a envernizá-la, colei cada banda num papelão cortado em forma de alface, pintado de verde com uma rodela de tomate vermelho no meio, e descolei com minha avó uma roupa cor-de-salsicha. Depois amarrei duas alças nas alfaces e vesti o pão como aqueles “outdoors” ambulantes anunciam com cartazes pendurados às costas que compram ouro, dólares y otras cositas más.

Mas veio a adolescência, o rock e aqueles impulsos irresistíveis de rebeldia que quando surgem quase sempre vêm mal direcionados. Que nunca morra a rebeldia, mas que seja regulada a mira, o foco. Eu devia ter uns dez ou onze anos quando resolvi que não era legal ser terceiro-mundista. Tinha uns amigos europeus, outros que achavam que eram, e resolvi entrar na onda também. Nada mais fácil que se revoltar contra o próprio lugar. Só ouvia música gringa, aumentei a importância do fato hoje irrelevante de ter nascido no Velho Mundo – um golpe quase-acidental do destino –, torcia contra a seleção, incorporei o discurso-ladainha racista e classista da “ignorância” do povo brasileiro e das “vantagens civilizatórias” dos Europeus, entre outras babaquices. Tudo isso, sabe-se lá como, eu dava um jeito de encaixar numa perspectiva de mundo que se achava “esquerdista”. E nesse caldo todo o carnaval virou algo como “baderna de gente inculta, incivilizada e despolitizada que não sabe o que é boa música”. Exatamente o tipo de discurso que todos os anos, mais ou menos por essa época, eu ouço e leio nos mais diversos lugares. Outro dia li um comentário na internet, numa matéria do Correio sobre o desfile do Suvaco da Asa, retomando o eterno clichê da comparação do carnaval com o “pão e circo” romano. Dizia qualquer coisa como “o povo fica nessa baderna enquanto os corruptos roubam o seu dinheiro”, como se uma coisa tivesse algo a ver com a outra.

Se o carnaval foi vilanizado nessa fase lamentável de distanciamento do próprio lugar, ele precisou de alguns anos pra voltar com tudo como um dos fatores fundamentais de reaproximação e de realinhamento com pensamento e ação críticos e uma perspectiva centrada na localidade. A primeira descolonização, ainda antes da investida carnavalesca, veio pela música. O rock era incrível e eu tentava me distanciar do que se distanciava dele; mas o samba de Cartola, o choro de Ernesto Nazareth e Pixinguinha e o baião de Luiz Gonzaga voltavam ali pelos meus catorze anos como investidas irresistíveis. E foram abrindo portas. Antes de qualquer outra coisa, foi um novo lado da minha casa que eu redescobri: as estantes que ocupavam toda uma parede da sala com a coleção de discos do meu padrasto. Mas se era o apelo “popular-erudito”, que eu via nesses clássicos pra fazê-los encaixar numa leitura estética absolutamente restrita, o que me fez mergulhar nos volumes nacionais da discoteca de casa, aos poucos as barreiras e limites foram sendo empurrados e derrubados, e o caminho se tornou sem volta. Fui descobrindo cada vez mais paixões e cada vez mais me apaixonando pela música brasileira, que por sua vez puxou a música latino-americana, e logo logo o mundo inteiro aparecia como produtor de boa música, tornando-se muito maior que o Reino Unido e Seattle.

E aí veio o carnaval. E a primeira sedução não precisou de muito. Foi ainda em Brasília, e seu tão mal afamado carnaval. Mas pra quem não tinha nada e não sabia de nada, o Galinho da Madrugada e o Pacotão foram experiências revolucionárias. Naquela época eu já não escondia o amor pelo samba, mas tudo se transformou – para citar Paulinho – quando vi o ritmo tomando as ruas de Brasília – as quadras, pra ficar num plano ainda mais carnavalesco. E ele vinha acompanhado de vias interditadas para carros, os pedestres despreocupados; pais de família travestidos, crianças brincando livres na cidade, fantasias de todos os tipos, uma multidão colorida. Brasília mais viva do que eu jamais a conhecera. Aquilo era, antes de qualquer outra coisa, uma experiência estética maravilhosa. A cidade onde eu crescera, tantas vezes taxada de morta e hostil, um lugar onde supostamente não há gente nas ruas, de repente tomada por uma massa de pessoas alegres. Foi emocionante!

O Céu na Terra, em Santa Teresa, no pré-carnaval de 2011
E eu, que então era cheio de travas, me joguei na bagunça e fui inoculado pelo vírus do carnaval. E veio o Rio de Janeiro. Eu já sabia, porque já era notícia, que a folia carioca era maior que o sambódromo. Eram mesmo os blocos de rua que eu queria. E fui feliz! Aquilo tudo era muito maior e intenso do que o que eu vira em Brasília. E me lembrei das histórias que meu avô contava dos carnavais de seu tempo no Rio, e o bonde, e as brincadeiras, e as fantasias, e foi muito bom sentir, ainda que tardiamente, que eu compartilhava aquilo com ele. E amei o Rio mais do que nunca.

E veio Oruro, o carnaval maravilha boliviano. Nem me dei conta de que minha visita à cidade coincidiria com a festa. Foi uma coincidência fantástica. 
Diablo orureño. Essa eu tive que roubar no
gúgol, porque não levei câmera pra Bolívia
Cheguei a Oruro na véspera do carnaval. Pela ruas da cidade, todo tipo de gente trabalhava em enfeitá-la. O trajeto dos desfiles ia ganhando o equipamento das arquibancadas. E as crianças já se divertiam com os balões cheios d’água, pra desespero de turistas desavisados. A primeira coisa que fiz foi vestir a capa de chuva e me armar dos meus próprios balões. Entendi de cara o júbilo das crianças naquele simulacro úmido e divertido de uma batalha campal. O carnaval de Oruro, patrimônio imaterial da humanidade, com tantas diferenças e uma simbologia tão distante dos carnavais brasileiros, me fez sentir mais próximo do mundo andino que nunca. O fundamento religioso é sempre evidenciado por lá. Antes de qualquer outra coisa, reverencia-se à Pachamama e ao Tio Supay. Bebendo vorazmente cerveja, álcool de cozinha ou chuflay (a mistura da terrível singani boliviana com sprite), fantasiados de diabos e dançando a diablada, os orureños e camponeses de todo o território andino (que viajam à cidade pra pedir fartura à Pachamama) nunca perdem de vista a dimensão sagrada da embriaguez profana. A ch’alla, com que brindam e saúdam os próximos e os distantes, é tão profana quanto sagrada. A Virgem do Socavón divide o terreno festivo com os sacrifícios de animais e a cerveja que se derrama no chão, como aqui fazemos “para o santo”. E toda essa mistura de pachamama com catolicismo com festa com as fantasias mais coloridas que já vi com balões de água jogados por crianças nas ruas com música por toda a parte com bebedeira e tudo o mais foi como ver uma imagem contundente de que o Rio é Oruro, Oruro é Recife, e meu lugar é a América Latina tanto quanto o Brasil ou Brasília.

Olinda!
E vieram Olinda e Recife, e toda essa história se encaminhou para um desfecho urobórico na carnavalização da minha brasilianidade, do meu pan-latino-americanismo. Não há escala que dê conta de descrever a grandiosidade daquilo. No carnaval da conurbis pernambucana há lugar para tudo: para o Rio, para Brasília, para os Andes... Estar em Olinda entre o sábado de Zé Pereira e a quarta-feira de cinzas é como entrar em outra dimensão, um mundo paralelo não apenas de fantasias, mas de uma intensa fantasia onírica. É experiência transcendental, e o catalisador fundamental não é o álcool. O álcool tem seu lugar, é claro, sobretudo a cerveja que refresca o calor brutal. Mas o carnaval pernambucano é muito mais que uma festa regada a cachaça (que ali é bebida enlatada!). Nas ladeiras de Olinda e nas ruas do Recife Antigo encontrei na festa de Momo a intensidade de uma experiência religiosa. Religiosidade, diga-se, presente ali como em Oruro, sobretudo nos maracatus que produzem efeitos mágicos, em especial na Noite dos Tambores Silenciosos. Mas também uma religiosidade minha, uma religiosidade profana, um culto extático à história dos povos latino-americanos, que em Recife e Olinda, pelo menos uma semana por ano, tomam as ruas e afirmam sua potência soberana; um ritual anárquico – anarquista, ainda mais apropriado – encenado para lembrar que todo poder é frágil.

E a serpente (M’boitatá, Quetzalcóatl?) finalmente mordeu o rabo com o Suvaco da Asa. Não participei das primeiras edições do bloco, criado em 2006 por pernambucanas e pernambucanos radicados em Brasília. Só fui conhecê-lo às vésperas de minha primeira viagem ao carnaval de Recife, em 2009, no empenho de ir entrando no clima de uma folia de que eu quase nada sabia. Frevo pra mim era As Vassourinhas, e maracatu eu só conhecia em suas versões manguebeat ou naqueles movimentos da burguesia hippie brasiliense. Aquele (meu) primeiro desfile foi decisivo – me deu a chave para entrar com o pé certo na carnavalândia olindense. E a sagração completa veio logo depois, quando voltando a Brasília eu descobri por um golpe do acaso que uma das fundadoras do bloco vinha a ser minha prima – mapeamento que realizamos sem esforço, na mesa do bar onde acabáramos de nos conhecer, usando os conhecimentos genealógicos partilhados por todos os detentores de sobrenomes quatrocentões de Pernambuco, por mais distantes que sejam de suas famílias, como eu era. E assim, de uma seqüência de golpes carnavalescos, refiz os laços com toda a minha história, da família aristocrática de Camaragibe à luta anticolonial.

Essa história tem lugar ainda pra muitos capítulos e epílogos, a começar pela vida nova em Paraty, cidade festiva, dona de uma longa tradição carnavalesca, de bailes, fanfarras e blocos de mascarados. Por aqui, bonecos e máscaras enfeitando os casarões e os ensaios diários das baterias denunciam que o carnaval já inunda o espírito local. Mais, só posso dizer após as cinzas, quando começa a apuração.

domingo, 21 de novembro de 2010

Zumbi no Campinho



O Rio de Janeiro deu o passo à frente e definiu o 20 de novembro como feriado estadual. Não é o único. São centenas os municípios brasileiros que celebram oficialmente a data do assassinato de Zumbi, em 1695, definida desde 1978 como o Dia da Consciência Negra. O Distrito Federal ainda não, a despeito da ampla e importantíssima programação promovida todos os anos pelos grupos organizados e de forma independente pela população negra e comprometida com o combate ao racismo na capital do país. Em Paraty, a festa aconteceu no Quilombo Campinho da Independência, primeiro quilombo reconhecido e titulado oficialmente no Brasil, em março de 1999.

O XII Encontro da Cultura Negra, realizado pela Associação dos Moradores do Quilombo Campinho da Independência (AMOCQ), aconteceu entre os dias 19 e 21 de novembro, com uma linda programação!

Com a benção dos òrìsàs, o tempo que esteve fechado a semana inteira abriu-se num céu de brigadeiro desde a sexta-feira, e o samba com feijoada do almoço de sábado pôde acontecer com o sol merecido.

A festa foi linda, perfumada com samba, rap, ciranda, jongo, côco, maracatu, forró, comida boa e gente maravilhosa.

Sobre o 20 de novembro, em lugar das minhas palavras, compartilho esse texto impressionante do Luiz Antonio Simas: http://hisbrasileiras.blogspot.com/2010/11/dia-de-pensar-e-refletir.html

Deixo aqui algumas fotos, e assim que descobrir como fazê-lo compartilho também os vídeos.

Abraços energizados,

Asé!

O dia começou com samba...
... e feijoada!
À noite teve o show excepcional do Realidade Negra,
grupo de rap do Quilombo Campinho da Independência...
...brindado por uma lua cheia espetacular!