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terça-feira, 19 de julho de 2011

Balada de Paraty revolta

Morreu às duas da manhã de uma segunda-feira
A noite ardia escura, mar calmo na costeira
Furou-lhe a lâmina fria ainda era domingo
As pedras estavam secas, caiu o primeiro pingo
Na cidade a água rubra, jorrando na pedraria
Maré esperando a hora do rito de assepsia

Saiu pela noite quente, tomou três no Amarelinho
Já não sabia pra que bebia, só não queria estar sozinho
Fez um brinde aos companheiros, mas não o queriam lá
Bebia, ficava chato, não sabia quando parar
Sentiu-se triste, rejeitado
Foi cair em outro lugar

Era noite de lua cheia, brisa quente da costeira
Chovia no alto da serra, temporal na cabeceira
No bar todo mundo sorria, mas não sorriam consigo
Pensou no quanto queria, naquela hora um amigo
Doeu-lhe não ser querido, invejou aquela alegria
Bebeu a saideira com raiva, disfarce da melancolia

As águas se revolviam, o ímpeto era crescente
Não tardava o Perequê-Açu subia e virava enchente
Saiu falando de amor, mas era ódio o que sentia
A cabeça confusa e cheia, mais uma dose vazia
Foi pra porta do forró
Pra ver o que acontecia

As moças dançavam bonito, os homens se divertiam
O sangue subiu à cabeça, as veias da pica se enchiam
Puxou a primeira que viu, nem bem sabia o que queria
O marido puxou a faca, presa da valentia
Furou-lhe a barriga de frente
O sangue jorrou impuro, tromba d'aguardente

Caiu torto sobre as pedras, nunca encontrou posição
Emprestou suas tripas à história secular daquele chão
Ficou a esperar que o Estado lhe desse enfim um abrigo
Não viriam lhe chorar, faltava-lhe o pranto amigo
A noite seria no claro, mais uma dormida na rua
Eram ele e a maré, embalados pela lua

O leito ganhava corpo, a tromba d'água descia
O corpo fazia leito na rua que amanhecia
Às onze sobe a maré, a enchente se anuncia
O corpo jaz intocado, o povo lhe policia
Não há quem lhe possa levar, acreditem vocês
Rabecão aqui não há, e o de Angra só chega às seis

Levou-lhe o corpo a enchente
Lavou-lhe a morte indecente
Deu capa de jornal
Trocaram-lhe a miséria do copo, e do crime passional
Pela miséria do corpo
Triste sina de indigente
Em tragédia ambiental

E o mar lavou as calçadas


Escrevi este poema em homenagem ao Zé Kleber, poeta maior da cidade, autor desta Balada de Paraty.
Foi um choque deparar, ainda no verão, com um corpo jazendo no chão, dia avançado, em pleno Centro Histórico. Vários curiosos em volta, alguém me contou que morrera no início da madrugada. Paraty não possui IML, o mais próximo fica em Angra, e o rabecão só passa aqui no final da tarde. Quem morre durante a noite espera o dia inteiro pela carona derradeira. Se o corpo caiu na rua, sobretudo quando o caso pede perícia, ali ficará à vista de todos e de todas. Cobrem-no com um lençol, para tentar amenizar o hediondo da cena. Quando o calor é demais, improvisam alguns guarda-sóis para tentar retardar a putrefação e o odor pestilento.
Quando presenciei a cena, vários meses atrás, fiquei estarrecido. Custando a acreditar na realidade de algo tão absurdo, tentei escrever sobre aquilo. Comecei a escrever um conto, que acabei não terminando. Calhou de justo naquele dia o rio Perequê-Açu subir até quase transbordar, e eu fiquei imaginando uma história fantástica (porém nada impossível) em que a enchente varreria a cidade e carregaria o corpo. Passado o momento crítico da catástrofe, o corpo seria encontrado e lhe seria atribuída a morte pela enchente, e não pela facada (também foi uma observadora curiosa do corpo quem me contou que a morte fora por faca). E o sujeito morreria assim pela segunda vez.
Hoje, escutando o Zé Kleber, lembrei da história e resolvi tentar novamente escrevê-la. Saiu na forma de poema, um tanto torto, gênero em que nunca me aventurei (mesmo como leitor, nunca fui muito longe). Ainda sei pouco sobre o Zé Kleber, uma das figuras mais queridas, admiradas e lembradas da cidade. Morreu em 1989, logo após ser eleito vereador. Mas sei que lutou apaixonadamente por Paraty e deixou lindas canções e poemas sobre a cidade. Várias delas podem ser encontradas neste link, sempre ilustradas por belas imagens de uma Paraty anterior à inauguração da BR-101 e da chegada do turismo. Até hoje, nas rodas de música locais, sempre são lembradas e cantadas em coro, com muita emoção, as canções do Zé Kleber.
Em uma próxima oportunidade escrevo sobre a violência por aqui. Por incrível que possa parecer, Paraty é considerado um dos municípios mais violentos do Brasil, em número de homicídios por habitante. Segundo o Mapa da Violência 2011, produzido pelo Instituto Sangari e pelo Ministério da Justiça, Paraty está na 72º posição dentre os mais de 5 mil municípios do país, com o número alarmante de 62,5 homicídios por 100 mil habitantes para o ano de referência de 2008. Hoje mesmo ouvi dizer, no boca a boca, que mais de uma pessoa perdeu a vida no último final de semana por causas violentas. As mortes, de maneira geral, são atribuídas a relações com o tráfico de drogas e a crimes passionais (normalmente, jovens que matam outros jovens por ciúmes em relação às suas namoradas). Nunca soube de um assassinato em assalto, por exemplo. A arma quase sempre é de fogo, mas às vezes puxa-se a faca.
E o rabecão só volta às seis.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Dos Alterógrafos


O autógrafo como fetiche

Alguém já deve ter dito das dedicatórias, sobretudo as autógrafas, que compõem em si subgênero literário. Algumas são, de fato, peças literárias. Ouvi dizer por esses dias que as dedicatórias em verso do Drummond viraram livro. Digo isso só pra citar um exemplo, e pra parecer que este blog está antenado nos lançamentos (não, não está). Mas acho que é um exemplo excepcional, e de fato as dedicatórias costumam ser outra coisa (pelo menos se concordarmos que literatura não é sinônimo de escrita).

Das dedicatórias, autógrafas ou não (e falo aqui especialmente daquelas derramadas sobre livros, em geral na folha de rosto), há muito o que se pode dizer, de muitas perspectivas, e muito elas dizem da literatura. Da literatura como campo, diga-se, que envolve não apenas a dimensão estética, mas tudo o que a ela mais diretamente se associa, incluído aí o mercado literário.

Há o fetiche, talvez o elemento mais óbvio. E um fetiche exemplar, olhemos-lhe como o faria Marx ou como o faria Freud. O garrancho missivista que reinventa e eterniza numa mesma frase a relação muitas vezes fantasiosa entre o nome de quem escreve, remetente, e o nome de quem lê, destinatário; a mácula de tinta na página clara, que curiosamente tornará o exemplar, dali em diante, um objeto imaculável; a marca pessoal da autora, na letra de próprio punho, à mercê da grafologia amadora do leitor, restituindo algo do elemento pessoal e artesanal em um objeto que se tornou industrial.

Flip

Em um evento literário como a Flip, autógrafos e dedicatórias ocupam um lugar muito especial. Pautam decisões da curadoria, tiram leitores e leitoras de casa (às vezes de muito longe), produzem filas monumentais, movimentam as livrarias. A livraria oficial do evento, vinda diretamente de São Paulo, ficava, não por acaso, justamente na “Tenda dos Autógrafos”, bem ao lado da mesa onde se sentavam autores e autoras (para o descontentamento do casal local de livreiros, desprestigiado pela organização da Festa). Nunca se vendeu tantos livros em tão pouco tempo como nos minutos imediatos após a bem sucedida palestra daquele escritor carismático, que em instantes capricharia na simpatia enquanto dedicaria beijos e abraços assinados por três horas, até que seu punho acusasse a tendinite (tá bom!, lançamento de Harry Potter vende mais, mesmo sem autógrafo).

Alguém certamente já escreveu um belo e merecido ensaio sobre as dedicatórias autógrafas, e eu serei grato a quem me indicar onde encontrá-lo. Mas não vou ensaiar aqui sobre o pretenso subgênero. Mais do que isso, nesses dias pós-Flip, me interessam as histórias por trás dos rabiscos. Acho que elas contam muito da relação entre leitores e leitoras (bibliófilos/as ou não), autores e autoras, livros e literatura, e inevitavelmente o mercado editorial e seus eventos.

Transdedicatórias

Meu amigo Carlos me contava, dia desses, de uma bonita coincidência. Comprou um livro usado, pela internet, e recebeu-o dedicado. Não a ele, é evidente. Tratava-se de uma antiga dedicatória, do tempo da edição. Mas o antigo portador era homônimo, e meu amigo foi surpreendido com um afago transgeracional, de alguém que jamais conhecera (possivelmente morto), endereçando palavras de afeto “Ao Carlos”. O Carlos chorou quando abriu o pacote, diante daquilo que a Ju interpretou como uma conspiração do universo. As dedicatórias são muitas vezes inspiradoras, mas às vezes são também conspiradoras.

O livro acidentalmente encaminhado ao destinatário desconhecido (pelo autor) da dedicatória, ainda redime pelo acaso a dimensão mais sublime da livraria de usados em tempos de sebos virtuais. Se já não há a possibilidade de se deparar, em meio a prateleiras nunca dantes exploradas pela humanidade, com exemplares raros e achados inesperados - o que dava sentido à função de vasculhador de sebos -, resta ainda a possibilidade do imponderável pela casualidade. Já não é mais o comprador bibliófilo quem vasculha as prateleiras, abana a poeira e afasta as teias de aranha em busca do grande achado. Agora cabe-lhe utilizar as palavras corretas na busca em estante virtual, encontrar o livro pretendido (o procurado, não o descoberto) e esperar que o livreiro o separe e encaminhe pelo correio. O que resta de acaso fica com coincidências mágicas como a da homonímia autografal.

Alterógrafos

Este exemplo de transdedicatória sugeriu-me ainda o grande valor não do autógrafo, mas do altógrafo. Ou alterógrafo, pra evitarmos o erro do neologismo heterógrafo, tão propenso a mal-entendimentos futuros. Trata-se daqueles livros que são autografados, mas não pelo autor. É um gênero muito próximo das dedicatórias afetuosas que costumam ser oferecidas com os livros presenteados (talvez até as inclua, em muitos casos pelo menos), mas que ainda guarda algo da relação autor(a)-leitor(a).

Conto um exemplo, diretamente da Flip: um dos momentos mais bonitos do evento foi um pequeno concerto oferecido em homenagem ao Paulo Moura, que deixou o mundo mais triste há exatamente um ano, no dia 12 de julho de 2010. Tocaram quatro grandes instrumentistas, parceiros do maestro em vida, na sala onde ele também tocara anos antes, no Teatro Espaço. Cliff Korman no piano, Daniela Spielmann no sax e na clarineta, Katia Preta no trombone e Robertinho Silva na percussão dividiram o palco com a viúva de Paulo Moura, a psicanalista Halina Grynberg, que lançava a biografia “Paulo Moura, um solo brasileiro”, de sua autoria. Comprei o livro ainda antes do show, uma edição maravilhosa que acompanha um CD do mestre em parceria com Andre Sachs e várias participações.

Entre uma música e outra, a viúva lia trechos do livro e contava histórias. Por mais que eu respeitasse a intensidade do que representava para ela aquele momento, de homenagem ao grande homem com quem foi casada por 26 anos, sua vaidade pavoneante e a insistência de querer ser maior que os/as músicos/as e a própria música não me permitiam criar empatia. A falta de empatia virou antipatia declarada quando a viúva desautorizou no palco o Robertinho Silva, um dos grandes da música brasileira e mundial, baterista e percussionista, parceiro não apenas de Paulo Moura, mas também de Milton, Wagner Tiso, George Benson, João Donato, Tom, Gal e Sarah Vaughan, pra citar uns poucos. 

Uma cena colonial, em um casarão do Centro Histórico anterior à abolição, em que a senhora branca, imbuída de autoridade estrutural e de ocasião (por ser branca, mas também por ser a viúva e por ser autora no evento literário), destratou o músico negro que ameaçou falar também, contar uma história vivida por ele próprio com o homenageado, mais de trinta anos antes, quando ela sequer conhecera o marido: “se você falar, eu vou tocar percussão”. Robertinho respondeu com um irônico “sim, senhora”, não em sinal de submissão, mas para evidenciar em que tipo de cenário aquela cena se ia configurando. No fundo, um enorme pôster com o sorriso negro do próprio Paulo.

Terminado o show, não pensei duas vezes: no lugar do autógrafo de Halina sobre o livro que escrevera, fui reverencioso entregar a caneta pro Robertinho, que assinou meu exemplar com alegria. Aqui, mais do que o fetiche, o pedido do autógrafo (ou alterógrafo) foi uma declaração de admiração e respeito, e um posicionamento.


Robertinho nos deu a honra de participar da roda de samba. O também
ilustre Chiquinho da Livraria esteve por lá.

Transferência

Houve história vagamente assemelhada, esta não um caso de alterógrafo, mas de transferência de fetiche. Fui com certa expectativa assistir à mesa intitulada “Pontos de Fuga”, com a argentina Pola Oloixarac e o português nascido em Angola valter hugo mãe. Primeiro por ser uma das poucas mesas da Flip em que eu já havia lido romances dos dois autores, e gostado; segundo porque havia meses que se falava com expectativa na presença dos dois em Paraty, expoentes da nova literatura. E havia a Pola, por mais perverso que isso possa ser quando o assunto que interessa é a literatura, que trazia ainda a expectativa sobre sua beleza. Pola era a sensação da Flip.

A mesa, no entanto, foi do mãe. O português carismático, nome sempre grafado em minúsculas, conseguiu arrebatar a platéia falando com simplicidade e humor de sua própria intimidade, de sua visão da literatura, de seu próximo romance e de sua relação com o Brasil. Tratando sobretudo do tema da “perda” e da “falta”, mãe se emocionou e emocionou o público lembrando da morte do pai e afirmando que “o escritor substitui na literatura aquilo que lhe falta”.

Saí eu próprio arrebatado, encantado com o mãe quando esperava me encantar com a Pola, e decidi pedir o autógrafo dele. Foi a única ocasião em que me dispus a comprar um livro na livraria oficial do evento e entrar na fila em busca de uma assinatura. E não fui o único. O romance novo dele, lançado na própria Flip, foi o único a esgotar nas prateleiras durante o evento, 500 cópias vendidas, duas mil pessoas na fila dos autógrafos.

Alguém se arrisca a decifrar que diabos
rabiscou o mãe?
Mas não entrei na fila apenas pra ter a letra dele no meu exemplar. Decidi, em troca, eu mesmo presenteá-lo com um livro. Lhe ofereci Matita, o bruxo, romance do Paulo César Pinheiro que eu acabara de ler e que muito me lembrara o romance anterior do mãe, o remorso de baltazar serapião. E não tive dúvidas: tasquei na folha de rosto a minha própria dedicatória, de agradecimento de leitor. Entrei na fila dos autógrafos não apenas pra ganhar, mas também pra oferecer um “autógrafo” (neste caso, meu próprio alterógrafo). E saí de lá com um garrancho ilegível escrito em caneta branca sobre a folha de rosto preta de a máquina de fazer espanhóis. Só decifrei ali o meu nome, e deduzi o nome do autor. Que, diga-se, não é nome de batismo. O mãe, na verdade, é batizado Valter Lemos, quem sabe meu parente distante, e escolheu levar a referência maternal no nome de trabalho por acreditar na incondicionalidade da presença materna, e na necessidade de que a literatura seja ela própria incondicional (na relação do autor com sua obra). Acho esse papo piegas e um tanto quanto duvidoso no caso da maternidade, mas gosto da defesa de uma literatura incondicional.


Sobre a maternidade, a propósito, a Pola teve um de seus bons momentos na mesa, quase sempre devidos a pitadas de acidez derramadas sobre o clima de comoção provocado pelo colega. Quando ele afirmou que pensava agora em ser pai, pela primeira vez, chegando aos 40 anos, a argentina comentou que se fosse ela a dizê-lo seria acusada de estar dando declarações do nível de Sex and the city.

É bom que se diga que fui movido aqui, em minha busca pelo autógrafo de v.h.m., pelo arrebatamento, pela fala que me fez emocionar e chorar. Disse coisas interessantes, a Pola. Sobretudo em momentos exteriores à mesa, em que ela nitidamente foi surpreendida pelo rumo da conversa (que prometia ser uma conversa sobre literatura) e acabou intimidada. Fez uma deliciosa provocação ao italiano que desistiu de vir à Flip em “protesto contra o governo brasileiro” pela não extradição do Cesare Batisti. E ainda uma leitura importante, de abrangência latino-americana, da contribuição do Oswald de Andrade, autor homenageado da Festa, ao aproximá-lo do patrício J. L. Borges, pensando a dificuldade dos dois países em dialogar quando muitas vezes falam das mesmas coisas. E apontou para a originalidade de Oswald, quando Borges estava sobejamente centrado num modelo importado de T. S. Eliot.

Desautografia

Falando em Oswald, e voltando aos autógrafos, houve quem tenha apanhado um dos exemplares de O Rei da Vela distribuídos gratuitamente pela Folha de S. Paulo e procurado ansiosamente ao longo do evento por uma oportunidade de encontrar o autor da vez para uma dedicatória personalizada no livro.

E ainda sobre autógrafos que não aconteceram, há o caso daqueles pedidos ao autor errado. A Flip estava especialmente propensa a fatalidades e constrangimentos como esse envolvendo autores e mediadores carecas de meia idade. Eram vários, inclusive o próprio mãe. Vislumbrei, num momento de sonho, uma cena ideal: um rapaz, emocionado com a participação do mãe, porém sem saco pra esperar horas na fila, procura pelo português nas ruas da cidade, o livro sempre debaixo do braço. Avista em uma das ruas de pedra a figura do autor careca, e o aborda com um sorriso e uma caneta. O escritor fica satisfeito com o reconhecimento, também sorri, e só quando toma o livro na mão para começar a escrever é que se dá conta de que não é obra sua.

– Você me desculpe, mas esse livro não é meu.

– Mas você não é o mãe?

– Não, eu sou o Pondé.

E o rapaz vai embora, decepcionado, deixando também decepcionado o mais canastrão dos autores da Flip. Eu não queria falar sobre o Pondé, de quem acho que nem vale a pena comentar, mas vou aproveitá-lo só pra fazer um gancho. O infame colunista da Folha foi convidado pra dividir a mesa com o Miguel Nicolelis, outra atração de grande envergadura da Flip. É evidente que não foi a escolha mais apropriada, e a presença do neurocientista, cuja apresentação resumiu-se a uma breve apresentação dos aspectos mais gerais de seus experimentos geniais, podia ter sido muito melhor aproveitada se tivesse tido a companhia de um provocador das implicações políticas e filosóficas de seu trabalho e seus produtos. Penso, por exemplo, no quão incrível poderia ter sido uma mesa reunindo Nicolelis e Eduardo Viveiros de Castro, ou a Donna Haraway. Pondé não fez nada disso.

Da provocação

Quem o fez, no entanto, em forma de provocação divertidíssima, com todo o respeito que eu tenho ao Nicolelis, foi o grande Zé Celso Martinez, na Macumba Antropófaga que encerrou o evento. Fazendo a ponte entre um dos momentos de maior repercussão da Flip e o texto mais notório do autor homenageado, Zé Celso resgatou do Manifesto Antropofágico a figura já folclórica do Dr. Voronoff, e a fundiu com a do criador do Instituto Internacional de Neurociências de Natal. Aqui foi o cientista franco-russo, já cantado por Noel e Lamartine, inventor de método nada ortodoxo de rejuvenescimento, quem transplantou glândulas sexuais de macacos em um tetraplégico e o fez levantar e marcar um gol apoteótico, com a camisa da seleção, como Nicolelis espera fazer na abertura da Copa do Mundo de 2014 utilizando um exoesqueleto controlado por estímulos cerebrais. Ciência e mito, aproximados não em menosprezo à ciência, mas em prol do entendimento da história e da narrativa crítica.

Haveria muito mais o que dizer sobre a Flip, é evidente, assim como muito já se disse nos últimos dias. Me esquivo, por ora, de qualquer comentário geral sobre o evento. Eles inevitavelmente surgirão em outros textos, quando eu abordar questões caras à cidade. Alguns temas importantes foram sugeridos no texto que linko aqui e também neste aqui, por gente que como eu também se mudou pra Paraty há pouco. Mas encerro assim mesmo, retomando as dedicatórias, dedicando este post já grande demais ao Carlos e à Ju.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Uma história para 1º de Abril

1º de abril. Data em que é comemorado, desde 1971, o Dia Mundial pela Conservação dos Centros Históricos. A data rememora o I Seminário Internacional das Nações Unidas para a Conservação dos Centros Históricos e do Patrimônio Arquitetônico Mundial, realizado na Cidade do Panamá, que deu origem à Carta do Panamá (mais conhecida como Declaración del Casco Viejo), assinada por diplomatas, arquitetos e urbanistas de mais de 160 países. A Carta alertava para a importância da preservação do patrimônio arquitetônico e urbanístico dos centros históricos de cidades de todos os países do mundo.

Coincidência ou não, foi justamente em 1971 que o “russo alucinado” Vsesolod Y. Semitchasny rodou um de seus filmes mais celebrados – e também mais rejeitados: No leito da Rua Direita a História segue o seu curso. No esquecido clássico de Semitchasny é justamente a figura do ‘Centro Histórico’ que aparece como alegoria da História – a História com ‘H’ maiúsculo, essa invenção do Ocidente moderno.

Cartaz original do filme, de 1971.
O cenário do filme é o Centro Histórico da fictícia Nova Elêusis, de localização e história incertas, mas que faz alusão à antiga cidade grega onde teria nascido o poeta Museu. Cenário, no filme em questão, é um elemento fílmico de caráter um tanto distinto daquele que assume historicamente não apenas no cinema, mas também no teatro. Aqui, embora as ações se desenrolem sempre no universo de Nova Elêusis, as tomadas foram realizadas em bairros históricos de oito cidades distintas e de características muito diversas: foram elas a Nizhny Novgorod russa, cidade natal do cineasta; na Itália, a monumental Roma e a colorida ilha veneziana de Burano; a gótica Stralsund, na Alemanha; a milenar e eclética Cuzco, no Peru; o Rio de Janeiro e Paraty, no Brasil; e a mesma Cidade do Panamá onde aconteceu o Seminário da Unesco.

Mas apesar do que pode dar a entender o tour de force cenográfico do experimentalista Semitchasny, não é o espaço que é aqui posto em questão, mas a representação do tempo. O Centro Histórico de Nova Elêusis, ela própria fictícia, aparece como alegoria da História, esta materialização do desejo do homem moderno pelo poder sobre o Tempo – que só pode acontecer pela criação de ficções, sejam as registradas nos livros, sejam as edificadas nas cidades.

Como num road movie às avessas, os personagens de No leito da Rua Direita... viajam o mundo sem sair do lugar. Os personagens estão sempre em Nova Elêusis; mas Nova Elêusis, a cada cena (às vezes, em planos diferentes de uma mesma cena) é sempre uma cidade diferente. O escritor Ítalo Calvino nunca escondeu sua admiração por Semitchasny, e certamente não foi por coincidência que escreveu As Cidades Invisíveis em 1972, apenas um ano após o lançamento do filme.

Cartaz para a Mostra do Novo Cinema
Russo, em 1973.
Ao alternar indiscriminadamente as locações onde foram filmados os diálogos desconexos do filme, o mestre russo cria a imagem de uma História absolutamente fluida e incerta, onde a grandiosidade arquitetônica opõe-se à fragilidade dos personagens. Mas, não se enganem, a espacialidade não é posta em questão. O filme é uma ode à localidade, ao pertencimento comunitário ao lugar como reduto da memória, e não da História com ambições universais e deslocalizadas.

Se os personagens principais do filme (sempre burgueses ambiciosos e aparentemente seguros – mas só nas aparências, e o diretor é muito hábil na arte de demonstrar sua verdadeira miséria), como o arquiteto Andropov e sua jovem noiva Julia, alternam entre as diversas locações, os personagens secundários, os figurantes, estão sempre nos mesmos lugares. A cada vez que uma cidade aparece, lá estão, em segundo plano, seus mesmos habitantes – habitantes diferentes para cada locação.

O Centro Histórico de Nova Elêusis é uma ficção, e tanto faz que história seja contada, que signos sejam mobilizados para contá-la: o que importa é quem a escreve e quem os manipula, e os protagonistas desta disputa estão muito claramente definidos no filme.

A escolha das duas locações brasileiras para o filme não foi por acaso. Semitchasny esteve mais de uma vez no país, e era um declarado admirador do filme Rio 40 Graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos. Há uma nítida influência do filme brasileiro em No leito da Rua Direita... Em ambas as obras suas verdadeiras protagonistas são as cidades, mais do que os personagens: o Rio, no filme de Nelson; Nova Elêusis, para o autor de Porrete/Demência. Semitchasny esteve em Paraty a convite de Nelson, que naquele 1971 rodava no município o longa Como era gostoso o meu francês, depois de ter filmado um ano antes, na mesma cidade, Azyllo Muito Louco.

Mas essa não foi a primeira visita do russo ao Brasil. Semitchasny foi assistente de Orson Welles, e foi este quem o trouxe pela primeira vez ao país, em sua temporada por aqui em 1942. Voltou outras vezes, e teria rodado algumas cenas do clássico Porrete/Demência em Belo Horizonte, em 1959.

Assisti ao raro filme de Semitchasny numa cópia em VHS que me foi emprestada por um velho morador de Paraty, Seu Benedito, ele próprio figurante nas cenas locais. Fiquei impressionado com a força com que o filme alegoriza um aspecto da Paraty contemporânea que dificilmente o diretor teria percebido no princípio dos anos 70. Naquela época, a cidade ainda apenas iniciava o processo que a transformou em um dos principais destinos turísticos do Brasil: 1971 é justamente o ano de inauguração do trecho da Estrada Rio-Santos (BR 101, a famosa ‘Brioi’) que facilitaria enormemente o acesso por terra a Paraty.

Hoje, como na tese que o filme de Semitchasny parece defender, o Centro Histórico de Paraty é uma ficção alegórica que sustenta uma versão oficial e raramente contestada da história da cidade. Se o bairro parece preservar ou conservar o patrimônio arquitetônico da ‘Paraty histórica’, a cidade-cenário de sua própria narrativa oficial (centrada nos ciclos do ouro e da cana, com a decadência econômica que a isolou após a abertura de novas rotas portuárias e a abolição da escravidão), as fotografias e os relatos dos moradores mais velhos não deixam dúvidas de que se trata antes de uma reconstrução.

O cenário do Centro Histórico paratiense, antes da descoberta pelo turismo, era antes o de uma cidade decadente e abandonada. Casarões condenados, carcomidos pelo tempo; quarteirões inteiros feitos apenas de escombros; mas, mais importante que isso tudo, um grande número de casas ecléticas, produto da arquitetura de muitos e distintos períodos. Estas, foram quase todas demolidas (resta uma, solitária, que em breve será retratada e devidamente apresentada neste humilde blog); aqueles – todos os espaços vazios e prédios irrecuperáveis –, foram transformados em lindos e impecáveis 'casarões coloniais', que via de regra servem de abrigo para a) lojinhas para turistas ou b) residência para ricos empresários paulistanos ou europeus.

O mais grave não é a disneylandização do Shopping Histórico, digo, do Centro Histórico; é que suas edificações sirvam de lastro para a manutenção de uma história que apenas preserva e conserva a concentração dos recursos (materiais e simbólicos) nas mãos de uma elite que reúne a velha aristocracia das 'famílias tradicionais de Paraty' e alguns oportunistas. É preciso abrir a história da cidade, preenchê-la com as memórias de seus moradores – não apenas os que ostentam sobrenomes Históricos.

A Carta do Panamá apontava ainda para um aspecto fundamental, mas muitas vezes esquecido, do trabalho de conservação dos Centros Históricos: a musealização do patrimônio a céu aberto. Há muitos lugares 'históricos' no mundo – Semitchasny escolheu oito para seu filme. São históricos não porque têm história (é evidente que todos os lugares o têm); mas porque são espaços privilegiados para a qualificação da memória. Mas para tanto é preciso que sejam também qualificados: sinalizados, discutidos, postos em dúvida.

Vsesolod Y. Semitchasny
A repercussão negativa dos filmes de Semitchasny talvez devesse mais a sua personalidade e conduta que à qualidade da obra. Sua fama era de “louco alucinado” (donde o apelido de “russo alucinado”, que sempre o acompanhou), e mesmo Stanley Kubrick, seu amigo e admirador, referia-se a ele como um “doidão”. O cineasta americano chegou a afirmar ter se inspirado em Semitchasny para construir com Jack Nicholson o personagem principal de O Iluminado. Seu trabalho foi posto em dúvida, assim como sua reputação. Hoje, no entanto, praticamente esquecido, não há o que se por em dúvida.

Eis o mais severo dos efeitos do esquecimento: a falência crítica. Neste 1º de abril, em que se celebra pela trigésima vez o Dia Mundial pela Conservação dos Centros Históricos, vivemos também no Brasil, mais do que nunca, um momento crucial na luta pelo direito à memória. Não é a História (esta ficção nacionalista), mas a memória o que está em jogo quando lutamos pelo Direito à Verdade no desarquivamento da história recente da ditadura no Brasil. Este texto, incerto e disperso, é minha tentativa de contribuição neste 1º de abril à Terceira edição da blogagem coletiva pela abertura dos arquivos secretos da ditadura militar.

Encerro com alguns links sobre o assunto:

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O Eterno Retorno (ou Auto de Ano Novo da Serra da Bocaina - 1835/2011)


Paraty, 30 de dezembro de 2010
Temi pelo pior. A previsão era que chegassem às três horas, e como desfrutava o recesso de fim de ano voltei pra casa e abri uma cerveja pra esperar. Não estava só. Walison também tinha um copo sobre a mesa de latão que dá vida ao meu quintal com os resquícios de cervejas velhas que afogaram mágoas e brindaram alegrias por tantos anos em um ou mais bares de qualquer lugar do Brasil. Vinham de São Paulo, e quando ligaram ao meio-dia avisando que já estavam na metade do caminho imaginei que o Atlântico já fizesse parte da vista da estrada. Fiz um mapa horroroso indicando como se chega à minha casa, a partir do trevo rodoviário na entrada da cidade. Nem me ocorreu avisar que o caminho natural de quem vem pra Paraty de São Paulo é por Ubatuba, a terra de Cunhambebe.

Brasília, anos 2000
De muitas excrescências políticas vistas e vividas na capital federal, uma das mais surreais foi a mobilização de parte da comunidade do Lago Norte (bairro peninsular de mansões colado ao Plano Piloto) contra a construção de uma segunda ponte de acesso. Alegavam que a ponte apenas serviria ao acesso e mobilidade das comunidades mais pobres do entorno do bairro (Paranoá e Varjão, em especial). Para os “militantes” lago-nortinos, todos proprietários de carros particulares, mobilidade não era demanda prioritária. E, numa relação que demonstra sensível capacidade argumentativa, intuíam que a facilitação do acesso ao Lago Norte pela vizinhança menos abastada traria toda a sorte de mazelas para sua ilibada comunidade.

Paraty, Era Cenozóica, Holoceno
Bombardeado a vida inteira por este tipo de racionalidade, não foi exatamente com surpresa que fui perceber, logo na primeira semana em Paraty, que o mesmíssimo discurso faz sucesso por aqui também. O alvo prioritário é a estrada Paraty-Cunha, que aliviaria o tráfego da infame BR 101, devolvendo à histórica cidade portuária sua ligação com São Paulo e Minas. A Paraty-Cunha segue a rota da antiga – e agora de volta à moda pra turma do turismo de aventura – Estrada Real, atravessando o Parque Nacional da Serra da Bocaina. A previsão é de que as obras de reforma da estrada (falta um trecho do lado fluminense, ainda não asfaltado) fiquem prontas até o fim de 2011. Será muito mais fácil o acesso terrestre à cidade, que não mais se dará necessariamente pela tensa costeira sinuosa. E é isso que assusta a população abastada local, a perspectiva de que o acesso facilitado traga ainda mais turistas pra cá, e um turismo menos – digamos – chique. Milhares de famílias de motobóis, contínuos e outros “populares” paulistanos escolhendo a cidade colonial pra evitar nos feriados de sol os engarrafamentos do Guarujá.

Paraty, 30 de dezembro de 2010
Já eram quase quatro horas quando decidi telefonar. Não quis encher o saco antes, porque um atraso de meia hora é compreensível, imaginei a estrada cheia, e não queria parecer ansioso. Mas eu já começava a me embriagar – esperávamos que todos chegassem pra um almoço coletivo e com a tarde avançada a cerveja gelada roncava no meu estômago. Fiquei preocupado: acidentes não são raros na BR 101, e não é nada bem afamado o posto policial que faz ronda nos primeiros trechos fluminenses de estrada, logo após a fronteira de Ubatuba. Liguei primeiro no telefone de Marina, desligado ou fora da área de serviço; com o do Antonio, a mesma coisa. Achei estranho, porque há cobertura em todo o trajeto da Rio-Santos. Mais uma cerveja, e voltei a telefonar. Quase às 17 horas, após muitas cervejas e muito ouvir as gravações de celular fora de área, estava certo de que estariam acidentados ou presos – possivelmente, e na melhor das hipóteses, teriam sido ganhos com um baseado ou coisa parecida. Chegaram. Orientados por uma pegadinha do GPS, tomaram a “mais curta” Paraty-Cunha.

Guaratinguetá, 1º de janeiro de 1835
Abaixo assinado, datado de 1º de janeiro de 1835, firmado por 55 “cidadãos, filhos e moradores da Provincia de São Paulo, [Guaratinguetá] trabalhando efetivamente com suas tropas na estrada que daquella Provincia se dirige a essa Villa...” e dirigido à Câmara de Paraty, que dizia “representar contra o deplorável estado em que ora, mais que nunca, se acha a Serra denominada do Paraty; é sem dúvidas, Ilmos. Srs., assás doloroso, que apezar de pagarem tantos Direitos e de concorrerem tão eficazmente para o aumento e prosperidade dessa Grande Villa, sejão contudo os infra escritos condenados a sofrerem tantos males, encomodos e prejuizos, em conseqüência do desprezo em que se acha aquela Serra, desprezo que tão caro custa aos abaixo assinados, que por muitos titulos parece que deveriam merecer mais cuidados e atenções de V. Sas.; ao menos Ilmos. Srs. que uma só vez a cada anno se ordenasse o conserto de alguns mais notaveis precipicios que ali se encontram, já seria isso tolerável. Porém um abandono assim tão completo da única Estrada pela qual se acarreta para o Porto os ricos produtos daquella Provincia, é certamente digno de lástima. Os abaixo assinados, sofredores já de grandes perdas, não só em seus animais, como em seus próprios Escravos, vem perante V. Sas. reclamar com urgência por algum conserto naquella Serra, e quando isso não possam conseguir, ao menos pedir a abolição dos Direitos a que estão obrigados no Registro da Cachoeira. Tal é o apuro, Ilmos. Srs. a que os abaixo assinados são forçados: da inteireza pois e justiça de V. Sas. depende talvez a continuação ou cessassão de um commercio que muito influi, não só para a felicidade dos abaixo assinados, como e ainda muito mais para a prosperidade desse Porto. É pois com a maior confiança que os abaixo assinados, desesperados com os obstáculos que naquella Serra encontram, se dirigem diretamente a V. Sas., convencidos intimamente de que esta sua representação ou petição será indubitavelmente recebida e atendida como é de esperar-se do zelo e patriotismo de V. Sas.”.

Villa de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty, Era de Peixes
Sobre os impostos, ou “Direitos” (os pedágios da época), escreve o Dr. Samuel Costa que “Era tal a situação de angústia dos tropeiros, (precisando muitas vezes na secção da Vargem do Bananal estender os ligais de couro para as tropas sobre elas atravessarem os lamaçais), que ofereceram a contribuição voluntária de ‘quarenta réis’ por pessoa ou animal que passasse, começando a ser arrecadada em 22 de Abril de 1823, produzindo daí a 17 meses um rendimento líquido de perto de 800$000 que, naquele tempo era dinheiro apreciável, e por fim o Governo Imperial atendendo representação da Câmara da Vila, de 4 de Dezembro de 1824, autorizou, por Portaria de 18 do mesmo mês a aplicação do imposto de 80 réis por alqueire de sal importado da Bahia e Pernambuco para a realização dos consertos necessários. Era encarregado dos serviços, o Sargento Mór de Engenheiros Carlos Martins Penna, que construiu pela primeira vêz a ponte do ‘Registro’”.

Paraty, passagem ao ano 2011 da Era Cristã
Com o carro bastante avariado, me contaram que levaram quase duas horas pra vencer pouco mais de dez quilômetros, por uma trilha de precipícios por onde nem as mulas dos tropeiros passariam confortáveis. O Google Maps indica o mesmo e trágico – embora lindíssimo – caminho, em meio a um dos trechos de mais bem preservada Mata Atlântica. Sentamo-nos na nada chique mesa de latão, abrimos mais uma gelada, e como motobóis paulistanos em férias pusemo-nos a beber, ouvir as músicas que gostamos, e falar dos assuntos que quisemos, matando as saudades até firmar 2011.

Parque Nacional da Serra da Bocaina, Estrada Paraty-Cunha, RJ-165.
Registro de viagem de Marina e Antônio a Paraty, dez/2010.

domingo, 21 de novembro de 2010

Pinga ni mim, Paraty

Não é de hoje a fama da cachaça de Paraty.
E não é hoje, com essa postagem mixuruca, que eu vou dar por terminado o assunto no blog.
Voltarei a ele, muitas vezes, espero que a cada vez mais versado no tema.
O fato é que a cachaça paratiense não só faz juz à fama, como merecia uma divulgação reforçada.
Constatei, quando aqui cheguei e deparei com a variedade dos rótulos, que jamais bebera antes, em minha vida de bebedor, uma única dose da secular marvada da mata atlântica.
Rogério Lopes, relações públicas da APACAP,
exibe orgulhoso o patrimônio de Paraty
Explica-se. Em todo o Distrito Federal há um único revendedor de um único rótulo da produção dos alambiques de Paraty. E não me perguntem quem é, porque essa informação me foi contada durante uma privilegiadíssima sessão de degustação da danada e acabou afogada no álcool. Mas não se preocupem, porque procurarei sabê-lo e compartilharei a preciosa informação.

Já foram mais de 100 os alambiques do município, hoje reduzidos a menos de dez. Mas se a produção perdeu em quantidade, parece ter no mínimo mantido a qualidade. E quando falo da cachaça paratiense assim, de forma genérica, não é forçando a barra com induções generalizantes depois de ter provado um ou dois rótulos. Como eu disse aí em cima, tive o privilégio, recém-chegado à cidade, de participar de um verdadeiro rodízio de pinga, promovido pela APACAP, a Associação dos Produtores e Amigos (dos quais já me sinto um!) da Cachaça de Paraty.
Uma a uma provei, em pequeninas doses, todas as mais de vinte vertentes paratienses do produto bebível da destilação da cana-de-açúcar, esta que já foi uma das propulsoras do apogeu da cidade, junto com o escoamento do ouro, e que agora vai se adaptando ao novo ciclo econômico, o do turismo. Abri mão, naturalmente, das variedades adocicadas da água que a garrinchinha não bebe (gabrielas, pingas de banana e afins). Gosto do mé puro.

Não tenho competência (pelo menos por ora) pra fazer comentários pormenorizados sobre cada uma e suas diferenças. Faço apenas um destaque, após essa primeira rodada de apresentação (que na disposição da mesa da foto seguiu o sentido horário), para a premiadíssima pinga azuladinha, invenção local, que recebe folhas de mixirica ainda durante o processo de destilação. Fica azulada quando exposta à luz, e à danada de altíssima qualidade é incorporado um sutilíssimo aroma frutado. Coisa fina!

Em breve começarei a visitar, também um a um, os alambiques da região. Companhia é bem vinda!

Em minhas incursões à coleção Paratiana da biblioteca do Instituto Histórico e Artístico de Paraty, o IHAP, encontrei entre os arquivos essa inspirada oração, que transcrevi respeitando a grafia original e agora compartilho com vocês:

Credo dos Pingueiros

"Creio na subtilidade do góle e de todo o produto de cana e da caninha. Creio na aguardente que é o nosso alimento, o qual foi concebido por obra e graça do alambique. Nasceu de um puríssimo canudo, padeceu sobre os apertos e prizão das moendas, e sepultado no côcho. No terceiro dia ressurgiu da garrafa, subiu ao céu da boca das cachaceiras e pau d'água. Estando o tonél bem arrolhado de onde há de vir alegrar os grandes e pequenos.

"Creio no Espírito de 21 gráus na santa safra do mél, na comunicação do imposto na remissão do sem penas, na reçaca de todos vós amém."

Anexada ao documento, uma pequena nota: "Adaptação do Credo Católico em alusão a aguardente fabricada em Paraty. Cópia do documento original, sem data, encontrado pelo Instituto Histórico e Artístico de Paraty durante a higienização dos documentos históricos para proteção."

Por fim, sobre o tema, compartilho com vocês alguns links interessantes: